15 December 2019

The Magnificent Seven Só Que Sem Serem Magnificent E São Four #2: Cuidado com o Krampus


Na taverna, à noite


"Já ouviram a célebre e lendária fuga de um bando de outcasts, que não tinham onde cair mortos, da Prisão Territorial de Yuma?" - pergunta Raimundo a uma criança e a um gnomo de porcelana, sentados ao balcão do saloon da Cidade. "Um pistoleiro dracónico com tendência para o uísque, um diabito com problemas de identidade, um guardião da justiça de Bob Marley e um crocodilo mágico. Lembram-se dos tempos em que a Prisão Territorial de Yuma era descrita como inescapável? Pois bem, meus amigos, estes quatro encontraram-se pelo acaso e, graças à força e ao seu engenho, quebraram as defesas da intolerável cadeia."

"Mas Raimundo, tu não estavas lá anteontem?" - inquiriu o taberneiro.

"Senhor Joquinha, deixa-o contar a história" - implorou a criancinha, com o gnomo ao colo.

"Então e quando se passou isto, Raimundo velhote?" - perguntou-lhe o taberneiro, sarcasticamente, mas fazendo a vontade à criança.

"Foi ontem à noite."

Raimundo sorri e levanta o copo de bagaço para dar mais um gole. Mas, quando volta a baixar os olhos, já não vê ninguém sentado consigo. Pela porta do saloon, está a sair uma criatura peluda que deixa pegadas de cabra e às costas leva um saco com duas figuras diminutas lá dentro.


No deserto, de manhã


Com a prisão pelas costas, os nossos heróis caminhavam já há várias horas.

"Parece que já estamos a penar nesta areia há um ano! Alguém orienta um bar?" - lamuria Black, sem ponta de álcool no sangue verde.

"Está aqui uma mercearia" - anuncia o senhor merceeiro "Jaime, chamo-me Jaime".

"Ah, pois está!" - e Black entra na mercearia com o Ditozito, ofegantes. Passados minutos, Black volta cambaleante e com um saco a tilintar devido ao choque de garrafas de bebida. Ditozito vem com fumo a sair pelas orelhas e a sacudir restos de ervas das mãos - "Jah Bless! Esta é da sagrada! Matenham a jangada na rota, que eu já rezei ao Bob, e só volto p'ra celebração de Haile Selassie, o primeiro. Fui!". Dito isto, Ditozito fica catatónico. Tak e FKA corvo amarram Ditozito ao cavalo-de-pau de Black e recomeçam a caminhada.

"Estou a sentir um formigueiro!" - grita FKA corvo.

Os quatro, no meio de quilómetros de areia, e sem ninguém para assistir ao peculiar espectáculo, começam a ter ligeiros espamos, enquanto pedras preciosas várias lhes caem dos bolsos. "Que se passou-se?" inquire Black, todo narso, a baixar-se para tentar recuperar a guita.

"Maior nós-mundo! Força grande. Olho alargar, ver mais. Bom" - tenta informar Tak, ainda a tremer.

"Acho que subimos de nível" - traduz FKA.


Passados dois dias avistam uma pequena aldeia.

"Olha ali! FKA, estás a ver algum bar? É hoje que organizamos a festa!" - diz Black, enquanto mama a última garrafa de bebida de um só trago. Atira o recipiente para trás das costas. Tak, com um ligeiro suspiro, vai apanhar a garrafa e arruma-a num saco bio-degradável, já quase cheio. Junta-se aos companheiros, a tilintar.

FKA semicerra os olhos para ver melhor, mas vê tudo fusco. "Está muito sol, doi-me a tola, tenho a minha perception toda lixada, rolei baixo. Vês algo, Tak?"

Tak olha em volta e vê um águia a rondar - "Tak entrar". A jovem águia sente-se como quando viu o filme Being John Malkovich e, sem ter controlo do seu próprio voo, vira-se para a aldeia, curiosa. Não vê vivalma, mas, com o seu olhar perfeito, detecta o brilho amarelo do vil metal e o negrume ardente de armas de fogo. Também avista, para seu alívio, um contentor de reciclagem verde.

Quando chegam à aldeia, Black recolhe o ouro, armas e munições e Tak livra-se do seu fardo ecológico. Mas Black, apesar do tesouro inesperado, começa a ficar impaciente.

"Aqui não vai dar. Eu já não tenho pinga - só no sangue, eheh - e não há party boys aqui. Siga viagem." - diz Black, enquanto cambaleia deserto adentro, arrastando Ditozito pela areia.


Já com bolhas nas patas e pés, e com pouca ração, os nosso campeões chegam a uma cidade.

"Pst pst! Venham aqui, venham, venham!" - pisca-lhes o olho uma jovem, dentro de uma carruagem de comboio.

"Que casa ser aquela?" - pergunta Tak a FKA corvo.

"Tak, tu tem calma. Aquilo não é uma casa. Fecha os olhos Tak. Agora, dá três passos em frente. Abre os olhos. Viste? Estás mais à frente. Uma carruagem faz o mesmo, mas mais depressa."

Tak aceita o convite da rapariga, sobe para a carruagem, fecha os olhos e espera.

"És maior?” - pergunta a desconhecida, toda lambona.

"Tak já falar com Nila" - retorque Tak, de olhos fechados.

"Não me chamo Nila, oh lagartixa!"

FKA consulta o seu dossier de Lizardspeak e conclui - "Nila quer dizer 'jovem simpática, porém desconhecida e potencialmente não confiável, que se encontrou numa cidade do deserto'. Se fosse numa ilha, por exemplo, já era Nica. Ah, com k. Curiosa a linguagem do nosso camarada"

"Olha-me este!" e vai-se embora.

No fim deste diálogo, Tak abre os olhos.

"Estranho. Tak quieto. Ashreti mentir a Tak?"

"Tak, para o que te deu hoje. Tens de esperar muito mais que isso para resultar. Vamos ver as redondezas."

Ao circundarem o comboio, vêem que ele está a ser vigiado por um guarda velho.

"Deve haver ali tinto do bom. Precisamos disso para organizar a festa ali no bar" e aponta "Corvito, eu vou ali conversar com o guarda e tu, que és do sneak, tenta micar umas brews."

Black aproxima-se do senhor guarda, ainda com Ditozito pelas costas.

"O seu bigode está incrível, faz-me lembrar o meu avô, que cuidava muito bem do seu bigode!" - o guarda mantém a postura, sem responder. Black insiste - "O que faz para cuidadar de tal bigodaça?"

"Amigo, saía daqui" - e dá-lhe uma bengalada, como se tivesse apanhado o Dâmaso a subir o Chiado.

Enquanto isso, FKA e Tak inspecionam umas caixas que encontraram no comboio. Black vê uma patrulha de guardas a aproximar-se da carruagem onde os seus amigos, ignorantes do potencial perigo, haviam entrado.

Black, em sobressalto, vai ter com os guardar e aborda um deles.

"Oh amigo! Então, o seu amigo está ali todo janota, e você apresenta o farto bigode nesse estado? Migalhas, ...., uh, ... nódoas ..." e arrota.

O guarda injuriado agride o draco-humano com o seu cacetete.

"Oh homem, deixe-se estar, eu vou-me embora." - diz Black, caído no chão. Depois vira a cara para onde os seus amigos estão e grita - "FUJAM DAÍ, ESTÁ AQUI A GUARDA."

"Vamos sair pela janela!" - grita FKA de dentro do comboio.

"Eu também?" - questiona Black, confuso.

"Não, tu já aí estás fora".


Tak e FKA saltam pelas traseiras, FKA corre para longe e Tak esconde-se debaixo do comboio mas deixa o seu pau de fora. O mesmo, útil como de costume, indica que a profundidade estava próxima de zero. Os guardas, avistam o pau e gritam em uníssono afinadíssimo - "Ladrão! Ladrão!"

"Ir embora" - diz Tak e afasta-se pelo outro lado.

Black, depois de pensar, volta a aproximar-se da patrulha, e diz - "Calma, não são estes os meus amigos ... uh ... nós andamos a traficar ... mel ... e estamos na primeira carruagem ... nesta está o Tak ... que não conheço... ya, é isso"

FKA, notando que os guardas não pareciam convencidos, apesar do discurso estatal do brilhante estratega Black, usa a sua fiel thautarturgy para criar vozes a vir da primeira carruagem.

"ESTAMOS AQUI, CHEIOS DE MEL TRAFICADO E AQUELES GUARDAS NEM SABEM, QUE CASTORES."

Os guardas, olham uns para os outros primeiro, coçando os seus bigodes, e depois para a primeira carruagem, mas não parecem totalmente convencidos.

FKA tenta de novo - "VEM AÍ O NOSSO AMIGO FKA CORVO, O TAK NÃO VEM, ELE NÃO GOSTA DE MEL. E O BLACK? ELE TAMBÉM NÃO, ELE QUER SAIR DO GANG. ELE SÓ VIA, NUNCA CONSUMIU" - FKA, que até ao momento, não tinha sido avistado pelos guardas, passa à frente deles a correr em direção à primeira carruagem. Os guardas seguem atrás dele, enquanto Tak, Black e Ditozito (por vontade de outrem) se escondem na oficina da estação.

FKA, a pensar no que acabou de dizer, apercebe-se que, na verdade, se deveria esconder e atira-se para dentro da bilheteira. Os guardas chegam à primeira carruagem e são recebidas por umas velhas tias de vestido de gala a beber chá. Decidem prendê-las, para não parecer mal.

Os nossos heróis reunem-se de novo e, cuidadosamente, partem em direção à locomotiva. Ao passarem ao lado da primeira carruagem, vêem um duelo épico entre sombrinhas e cacetetes.

Sobem para a locomotiva. Ao entrarem, vêem um monte de pêlo num canto, a ressonar. Não ligam, tinham assuntos mais prementes a tratar. Como, por exemplo, arrancar dali para fora. Mas, infelizmente, nenhum deles sabia operar tal maquinaria. Tak, tenta ajudar Black a perceber os mecanismos usando a sua habilidade para guiar a aprendizagem de outros seres, mesmo quando estes estão podres de bebedos. Sucesso!

"Uiiii! Basta meter carvão e puxar a alavanca" - diz Black enquanto manipula vários botões e manivelas. Os outros batem palmas discretamente e cantam o seu hino, baixinho - "O TAK É DRUIDA!!"

Tak, inchado, manda uma escarreta flamejante do nariz para o carvão. O comboio inicia a marcha, lentamente.


Tak leva um tiro. Os guardas e as velhas, percebendo a patranha genial, haviam decidido chacinar quem não merece ser chacinado. Triste sorte, a dos nossos campeões, que pareciam ter a vida encaminhada. Mas nada tema, fiel leitor, a sorte protege os audazes.

Tak, tendo uma epiderme muito resistente, apenas precisa de expandir o peito para expulsar o projétil. Aproveita o mesmo movimento anatómico para expelir uma escarreta flamejante que havia guardado na outra narina, para situações inesperadas. A chama chamusca todos os bigodes da formosa patrulha, para jubilo das velhas, que preferem uma cara limpinha. O festejo das amigas do chá é de curta duração pois Black, ainda no ponto, usa o seu drunk style, com piruetas e tudo, para dançar com elas para fora do comboio. Black entusiasma-se e continua o baile no topo da locomotiva.

"Não te esqueças do que foste aí fazer! Já te livraste deles, agora anda conduzir isto" - relembra-o FKA, preocupado de que aparecessem outros obstáculos.

"Agora 'tou a curtir" - riposta Black.

"Onde é que nós estamos?" - pergunta Ditozito, a rodopiar pelos ares, agarrado a Black, mas já recomposto da sessão espiritual.


O comboio a andar e as horas a passar. Black, que entretanto ensinou FKA a conduzir, aventurou-se a investigar os outros vagões. Num deles, encontra dois revolveres e um frasco com um líquido transparente, com o seguinte rótulo: "Água benta do tio Bento, abençoa burro e o seu jumento". Black, intrigado, guarda o frasco para pedir a Tak que lhe abençoe os revolveres. Já de saída, pensa ver FKA embrulhado num pano no fundo da sala, e, enervado, disfere-lhe um pontapé no nariz.

"Ai! Ia fodendo a pata. Cum caraças, corvo, tens a testa dura" - choraminga o humano-dragonesco, com o orgulho ferido. 'FKA' não responde, pois era uma estátua de tiefling - "Ah, és tu afinal."

Black, de volta à locomotiva, informa os companheiros do que viu. FKA atira o manual de condução da locomotiva a Ditozito e abala. Ao chegar à carruagem, depara-se com uma beleza helénica como não via desde a Penélope.

"Meu amor, vou-te pintar o mármore, estás pálida" - grunhe FKA. O apaixonado diabito atira-se a ela, com demasiado entusiasmo, e caem do comboio.

"Que passou-se?" - pergunta Black ao ouvir o estrondo.

"Oh my Bobzito! O diabozito caiu do comboiozito! Anda aqui parar isto, Blackzito!" - explica Ditozito, aflitozito.

Mas Black estava demasiado sóbrio para se lembrar de como conduzir maquinaria daquela complexidade: "Eu fico na buzina :)"

Tak, despois de abençoar os revolveres - prioridades acima de tudo - fecha os olhos - "Tak saber caminho" - e nisto atira um balde de água para as chamas.

"Tak? Acabaste de lixar o comboio, isso agora só pega de empurrão" - explica-lhe um dos revolveres abençoados.

Passados alguns minutos, FKA sobe à locomotiva com uma expressão imperscrutável.

"Então a estátua?" - pergunta-lhe Black.

"A estátua já foi, está no caraças, esquece a estátua."

Ditozito desprende a locomotiva das restantes carruagens, e mete-se a empurrar - "Diabito, dá-lhe gás!"

FKA puxa a chave na ignição, prego a fundo, e o comboio arranca. O tiefling mantém-se ao leme enquanto os outros três, fatigados, se enroscam e adormecem ao ritmo suave da marcha lenta do comboio.


Já de madrugada, Tak acorda com um cheiro nauseabundo, que lhe dava saudades de casa. Ao abrir os olhos, vê um monstro peludo a enfiar Ditozito num saco e, ainda com sonito, alerta o condutor.

"Olá amigo! Pelo seu aspecto, diria que é um ser Infernal como eu! O que quer do nosso companheiro, o missionário de Marley?" - inquire FKA, animado por ver um primaço.

O monstro ri-se e salta borda fora com o saque astral, enfiando-se na floresta negra.

Surpreendidos pela situação carnavalesca, os nossos benfeitores demoram a reagir, mas lá páram a sua caravela metálica. Embrenham pelas árvores macabras e dão com uma parede rochosa. Ao olharem por uma fresta da dita parede, vêem um iglu no meio de um descampado. Apesar do céu estar limpo, neve caía com abundância, quase escondendo por completo os esqueletos tombados que decoravam a paisagem.


Krampus, acabado de chegar a casa, pousa as chaves no cinzeiro e o saco no sofá - "Que dia!". Depois de preparar a banheira com óleos essenciais, pega na gilete e começa a depilação. Saído do banho, liga a TV mas vê que a novela ainda não começou. Então, triste, inspeciona o que recolheu. Saca uma vaca, um pudim, o Penedo, uma criança com um gnomo ao colo, e duas chouriças de aves. Ah, e o Ditozito! Pobre destino o do nobre paladino: de futuro funcionário da oficina da Prisão Territorial de Yuma passou a merenda.

Lá fora, os três compinchas, de patas geladas, foram-se aproximando, cautelosamente, do iglu. FKA, o mais sneaky-sneaky, entra pela porta das traseiras mas escorrega num sabonete que voa até se espetar no corno esquerdo do Krampus. O anfitrião, furioso, atira correntes aos costados de FKA, que fica imobilizado - "ACUDAM!"

Tak, ao ouvir o pedido de socorro, entra na cabeça de um urso polar engravatado que estava de passagem, e força-o a ajudá-los a derrotar o malvado e bem-cheiroso Krampus. O urso e Black invadem a HQ de Krampus e, depois de alguma porrada, o mamífero consegue distraí-lo por tempo suficiente para Black puxar uma escarreta gloriosa de ácido do fundo da gargante e, cá vai disto, atira-o ao rabo do Krampus.

"Já mandei o ácido" - diz Black, satisfeitíssimo.

Krampus tinha deixado a frigideira ao lume e, derretido o óleo, começa um incêndio portentoso. Black pega em FKA e olha para Ditozito com cara de - "Salvas a criança?". Este não entende mas, confuso, anui e sai porta fora.

Tak, sentindo más vibrações universais, entra de novo na casa e salva a criança e o gnome, o último já em papa. Quando sai do que sobra do iglu, dá uma cabeçada em Ditozito. Liberta o urso e ajeita-lhe o nó windsor - "Tak amigo de urso. Urso amigo de Tak." - mas o urso dá-lhe uma chapada e vai embora; tinham-lhe arruinado a noite de dungeons and dragons.

Ditozito, lembrado-se das aulas de Introdução à Paladinagem, recorda-se de que devia proteger os fracos e oprimidos. O que ele (não) havia feito dava direito a açoitadas no lombo. Para se redimir, embrenha fogo adentro, em busca de algo para salvar. Encontra as chouriças, já assadas, e pensa "Desperdício é pecado". Mete-as no bolso e, quando levanta os olhos, vê uma bandeira do seu deus, Bob Marley. Sai, triunfante, empunhando-a - "Jah bless! Vamos encher o bandulho!"


Para festejar o seu sucesso, fazem uma jantarada ali mesmo. Ditozito, Black e FKA partilham as chouriças mas Tak, a conselho do seu cardiologista, abandonara as carnes vermelhas e dá uma dentada na chiça abdominal de Krampus. Dá asneira e vomita. Decide tirar apenas os cornos e os olhos, pois poderiam ser úteis em receitas druidescas.

"Mau cheiro, corno" - comenta Tak, enquanto arruma o corno higienizado. Os companheiros da boa esperança ainda saem de lá com um bag of holding, um staff das woodlands, uma leather armor que nunca se suja e um baralho de cartas.

"Vai uma suecada?" - pergunta Black, apresentando o baralho aos companheiros. Tak estica a pata e tira a primeira carta.

Azar dos azares, não era um baralho normal. Antes, um deck of many things. E calhou cóco.


"Doutor Tak de Vux, desafio-o para um duelo!" - diz o esqueleto, de espada na mão.

E assim, caros legentes, deixamos os nossos amigos numa bela alhada.

11 December 2019

Penedo - Uma História de BViriathus

DIA 1

A Senhora Dona Ju, o Luis divertido, o Zé Bezerra e o filho da psicóloga, nenhum deles mitra, colegas na Escola Secundária de Viriathus, e das pessoas mais serranas da escola, foram contactados pela prof. Cátia Amor-Amor e o Instituto Português de Salgados para empreenderem uma empreitada geológica sobre o litoral, que nunca tinham visto derivado de serem gente de Viriathus.

Só lhes disseram que o paper, que deveriam apresentar em Cambridge na semana seguinte, deveria ter o título "litoral é brutal :D!!". Abriram o Word, escreveram os nomes, fizeram copy-paste do título, centraram na página e partilharam com os Professores do Comité de Organização, pedindo feedback.

"Já reparei que vontade não vos falta"
"Gostei da apresentação. O negrito nem tanto"
"Uau, já percebi que vão contribuir para que todos repensemos as nossas atitudes e que possamos, ainda, recuperar o que já estragámos."
"Vou andar sempre por perto! ;)"
"Acho que está a ficar um trabalho interessante! Gostei sobretudo do início!!!!!!!!"

Mas o comentário mais crítico veio da própria Doutora Amor-Amor:

- Não nos podemos esquecer que outras pessoas estão a visualizar o que fazemos e esperam que façamos o trabalho com gosto mas de uma forma responsável!! They're watching us!


DIA 2

No dia seguinte, começaram a recolher referências para fazerem o state of the art. Acabaram o dia a espetar cinco links para notícias de há 10 anos atrás do Abola.pt no Word. Tal como antes, pediram feedback ao implacável comité:

"É curioso."
"É certo que a notícias já não são actuais, mas os riscos certamente que o são. Bom trabalho? Fica a questão no ar... "
"Olá! Realmente as notícias são preocupantes. Vou-me mudar para Mangualde."
"Notícias interessantes! Um problema sempre actual!! Leva-nos a questionar: porque não cortar o mal pela raiz? Afundem o litoral!"
"O meu computador não tem Word, podem enviar em Notepad?"

A Doutora Amor-Amor tinha misteriosamente desaparecido, mas o sub-comissário, Charles Dar-winning tomou o seu lugar:
- Afinal qual é a política de ordenamento do nosso território? Quais são as grandes prioridades do nosso governo? Ver se algo acontece primeiro? Actuar para evitar? Que acham?

Foi despedido no dia por se revelar demasiado intrusivo no trabalho dos prodígios. Dizem que foi para as Galápagos com os Testudines observar tartarugas.

*******

No final do segundo dia, não havia uma única palavra nova no Word. A equipa estava a sentir a pressão, e estavam sem líder. Luís ligou para o Comité:
- Ai! Tentámos, tentámos, mas não nos vejo a fazer nada! A SoDonaJu já está toda desvairada, credo! Vamos desistir! Chamem outras para a fatídica tarefa!

Do outro lado do telefone, soou uma voz cavernosa:
- Eu estou confiante que não vão ficar pelas tentativas... certamente irão usar todo vosso empenho e desenvolver um excelente trabalho. Força, é sempre a remar...
- Remar para onde, meu querido? Aqui em Viseu não há rio de largueza suficiente!
- Promovam, previnam, sensibilizem, e façam coisas a favor das boas e grandes costas portuguesas. Fico à espera.
E desligou.

- Boas e grandes são as tuas primas!
- P.S. Cuidado com o que escrevem.


DIA 3

Ao terceiro dia, a construção de um saber conjunto tinha melhorado com a entrada de novo elemento, o Raimundo.
- O Algarve é “Rei” - anunciou.
- Talvez fosse boa ideia irmos lá, ver isso do mar e tal. Há comboios para irmos - disse um ser amorfo do grupo.
- Haver há, - começou Raimundo, vermelho de irritado - mas não são grátis e eu não sou maior por isso não posso ir para o Algarve sempre que me apetecer (claro que a seguir vão dizer o mesmo por mais que eu diga que não tenho disponiblidade, oh well). Então vá, para aqueles que é uma prioridade desejo-vos boa sorte mas parem de pressionar os outros a pensarem como vocês. Eu também tinha mais para dizer (a Anime Weekend não é Geologia porquê? Só porque não é no Algarve?!?).
- [ironia] Gostei da reacção: "não encaro uma viagem ao Algarve como uma prioridade na minha vida"... [/ironia] Há que fazer sacrifícios... - comentou a amorfidade.
- Raimundo, calma. Podemos pedir aos nossos pais! - outra amorfidade regurgitou.
- lol Mas isso dos sacrifícios é relativo... Não conheces bem os encarregados de educação aqui de *Viriathus*, nós pedimos pa ir ao Algarve e eles fazem-nos a nós o que Viriato fez aos Romani lololol

*******

O grupo foi todo junto ao comité para resolver a altercação. A representante Guida Ghedi ficou de julgar o caso e começou por contar a sua história melosa, de quando era um jovem a fazer um trabalho de geologia:


"Eu era puto metaleiro e um dia soube que uma banda que eu gostava vinha pela primeira vez a portugal.

Azar dos azares vinham ao Porto.

Sem cheta e sem autorização formal dos meus pais, estava bem lixado.
Lá convenci os meus velhos a darem-me 2 contos e meti-me num Alfa para o Porto com outro amigo.

Não conhecia o Porto, não tinha dinheiro para mais nada senão almoçar e comprar o bilhete do concerto (além do bilhete de ida e volta do comboio).
Fui e vim no mesmo dia. O concerto foi um show e nunca mais se repetiu em Portugal com os contornos que nós assistimos.

...

...

Tinha 16 anos.

...

...

Não me falem de dinheiro e outras cenas. Eu quis ir porque queria MESMO ir. E consegui. Foi uma vez na vida. Dei por muito bem empregue. Posso dizer que os meus pais ficaram com o coração nas mãos e tive de gastar 50 escudos só para dizer que tinha chegado bem.

O que vos foi pedido não tem nem metade do perigo ou gastos que eu ilustrei. Mesmo assim acham que não dá¡

O comissário lx_trooper tem uma ditado sábio para isso: "Queres ir vais, comes menos pizzas e vais menos ao cinema".

De Facto... Os sacrifícios fazem-se pelo que se gosta.."


Depois de ouvir a história atentamente, Raimundo retorquiu:

- ???? 2000$00 = 10€! Nem chega para ir d quim até Abraveses xDxDxDxDxDxD mas está bem ... perigo? Lá agora... Peace...

Ouve um silêncio, até que se ouviu uma voz cavernosa:

- Bem-vindo, espero que não causes muitos disturbios...

- OBRIGADO!!! K SIMPÁTICOS!!!


DIA 4

Nota dos autores: antes de continuar queremos dizer que o nosso "humor" vai ser aligeirado, já que fomos "convidados" a alterar posts antigos pelo comité dos Salgados. Sendo assim, continuamos esta publicação com piadas fáceis mas menos agressivas. /Fim da nota/

O trabalho prosseguia. Tão imersos que já estavam no tema, era agora difícil para o quinteto falar de arribas e falésias sem que lhes surgisse a imagem de algo que nao conseguiam explicar por palavras, já que a emoçao era tanta (NOT!). Sendo assim, ficaram-se por esta imagem:


No final do dia, acabaram o primeiro secção do trabalho.

- Foi BEM CHATO mas já acabou! - suspirou o filho da psicóloga, todo psicanalisado.

Notaram uma câmara que nunca tinham visto a voltar-se para eles, e uma voz de mulher vinda do aparelho disse:

- Não me pareceu de forma alguma chato. Aliás parece-me que neste momento conseguiram elevar o nível de credibilidade do paper face a potenciais interessados no mesmo. Desta forma, resta-me desejar-vos uma boa continuação do trabalho. Parece-me que estão a conseguir encontrar um trilho. Não foi nada "chato", pelo contrário, vocês parecem tão (“altamente”!!) dinâmicos como o litoral ;)


DIA 5

No início do quinto dia, começaram a escrever as conclusões:

"Coesão dos materiais, o quão coeso a rocha é"

E receberam logo feedback:

"Como é que uma conclusão desta magnitude ainda não tinha sido concluída antes?? Parabéns ao génio que a elaborou!!"

Isto ainda antes de almoço, foi um enorme boost no moral da equipa de geólogos de algibeira. Durante o almoço, o Zé Bezerra, o mais burro dos cinco, sugeriu incluir o seguinte nas conclusões:

- A abrasão é uma chatice!

- Mas oh Zé, em Benagil antes existia uma gruta que hoje é uma praia, caiu em 1987 graças à abrasão. Sempre é mais útil que uma gruta - opinou a SoDonaJu.

Mas estava uma câmara por perto, e ouviram:

- Quantidade não é qualidade. Não me estou a referir ao vosso trabalho, mas sim a falar de uma forma em geral: não devemos estar sempre a concluir. Queria também alertar-vos para uma situação que começa a ser cada vez menos comum (mas ainda praticada) na web dos dias de hoje - O Plágio. Já em 401 AC, Platão concluiu que "a abrasão é muito inconveniente". Copiar de Platão tem um side-effect indesejado: eventual informação errada, visto que ele era um atrasadote ... ah, e serem processados. Resta-me despedir, desejando um bom trabalho ou melhor, uma boa continuação porque bom já ele está a ficar. Força nisso.

Depois daquele choque, retomaram o trabalho. Foi um dia muito produtivo, com vários deles a escreverem ao mesmo tempo no mesmo teclado. Luís estava entusiasmado:

- Não há flor como o girassol, não há animal como a borboleta, não há nada como a tua mão para me bater uma punheta! Raimundo! Esquece, fica só o desabafo.

Raimundo estava concentrado na escrita. Já só faltava a última secção, a mais difícil. Tinha de ficar para o dia seguinte.


DIA 6

Pela manhã, receberam uma mensagem de voz gravada do comité:

"Vocês podem perceber pouco de "queijo limiano" mas sabem bastante acerca das zonas costeiras e partilham as vossas aprendizagens com todos nós (não sei se fariam o mesmo com o queijito!!!!). Estão a fazer um excelente trabalho de investigação. Quem os lê aprende a filosofar :D Continuem porque estão no bom caminho... Mas não se esqueçam de registar o nome do avatar (Se entretanto já o fizeram, ignorem isto)!"

- E viva ao queijo... - gritaram os cinco amigos.


[fora da história]
Catarina Reis disse...

    Olá a todos!

    é só para vos dizer que já me ri com o vosso blogue! parabéns pelo trabalho e pela boa disposição!
    Continuem o bom trabalho e um bem haja ao vosso professor!
[de volta à história]


Apesar do feedback, o grupo sentia-se um pouco perdido. Como tal, decidiu iniciar um inquerito pela escola, auscultando opiniões sobre o paper.

"Está bastante José Sócrates" - Angel of Death
"Não vivo sem ele" - 16 pessoas
"Falta o César" - Serza
"Sem palavras xD Conseguem falar de um tema sério a filosofar xD Está muito fixe :D" - katia T.

Depois de analisarem longamente os resultados, decidiram pedir a Serza, indivíduo com propostas arrojadas, para integrar o seu grupo. Serza tinha sido despedido de outro grupo de investigação devido a divergências com a líder Joaninha, uma parola qualquer. Além disso, os nossos protagonistas são bastante mais giros, ele gosta da SoDonaJu e o Luís gosta dele (como amigo, claro...). Luís, à lá Tolstoi, enumera as seguintes características:

- É gordo, baixo, usa brincos e tem dois queixos. Além disso, acha que um elefante é maior que a Lua. Concordas Serza?

- Eu...

- Muito bem, senta-te aí no canto.

Vamos deixar um excerto do trabalho glorioso realizado nessa tarde, para terem uma noção do que estes meninos conseguiam:

"Jazigos Minerais são acumulações de rochas  que o Homem explora. Muitos minerais e rochas são (*cough cough*) matérias-primas vitais para o Homem e para o cão, apresentando uma grande importância industrial e social (por exemplo, quando arremessas um calhau a um sócio). Onde estariam as sociedades actuais sem calhaus? Eu cá não sei."

- Vocês são quase tão grandes como eu!!! Continuem assim e rezem que vão longe. - disse uma voz cavernosa - Cristo... YOU'RE FIRED! - ahh, era Deus!

O comité, no entanto, retrógrado, reagiu:

- Temos que passar para outra escola de pensamento teológico que esta está a ficar um pouco.................................... "pesada"!

Serza, idiota como era, gritou:

- A bauxite tem importância na indústria dos automóveis, da electricidade e da construção, o brómio destina-se principalmente ao tratamento de água e à indústria farmacêutica, a fluorina na química e o mercúrio em pilhas e medicina dentária! Vejam bem!! O fosfato dos detergentes na nossa própria alimentação assim como os sais.

- Fosfato? Só se comerdes ração de gado... seu patife. - disse Raimundo, o sábio. - Após esta trEbalheira toda é isso que dizes?

- Será possível?! Quase que morro a ouvir estas coisas xD Está muito fixe.. :P - katia T. não resistiu a passar lá para sublinhar a sua opinião.


DIA 7

No último dia havia muito a fazer e como tal acordaram pelas 14:35. Depois da zaragata do dia anterior, o filho da psicóloga vinha com uma ideia:

- Pessoal... e se em vez de um paper... fizessemos um fan club?

- Estás parvo? O paper está prestes a esticar o pernil porque a ASAE anda aqui a fiscalizar a venda de calhaus fora de prazo, mesmo estando nós a produzir uma sopa de pedra de gabarito com as samples! Não é altura de mudar de direcção!! - diz Serza, que tinha entrado no grupo 18 horas antes.

- Bem, eu pessoalmente não encaro o paper (nas suas vertentes académicas e de divulgação) como uma prioridade na minha vida (e acho que não sou o único) - lentamente, o filho da psicóloga cruza o olhar com o de SoDonaJu, Zé Bezerra, Raimundo e... Luís não, teve vergonha.

- Claro que eu gostava que o paper evoluísse, e se for na forma de clube que seja, e estou disposto a ajudar no que puder....... mas para mim não é assim tão importante. - disse SoDonaJu, um pouco hesitante.

- Também já fui sócio do Benfica (fizeram-me sócio quando nasci e fiquei até começar a pagar quotas, eu sou do Sporting) e do Belenenses (meu 2º e último clube português, mas era sócio mesmo só porque estava lá na natação), mas pronto. - comentou, saudoso mas talvez algo despropositado, Zé Bezerra.

- O filho da psicóloga falou-me disto a caminho da escola e já estava à espera que este tipo de comentários começasse. - disse Luís, subindo para cima de uma mesa - Fiquem a saber que já fui presidente do fan club do Tony Carreira e o que posso dizer é que há muita garandes fan clubs em Portugal. Apesar de ser um club de música "pimba" é um grande club onde todos estão juntos por um "bem" comum. As fans encontram-se regularmente em almoços e juntam-se para irem aos concertos pelo país e pela Europa. É assim que um club funciona. Todos juntos por uma coisa que amam. Sei que não é fácil para todos se juntarem, mas não digam que é pelas distâncias, hoje já há autoestradas e transportes para todo o lado, principalmente para as grandes cidades. - o tom de voz e intensidade de movimentos de Luís foram aumentado à medida que prosseguia. Caiu ao chão, exausto.

Os quatro interlocutores estavam de lágrimas nos olhos com discurso tão motivador. Raimundo estava já disposto a ir lavar pratos para poder ir ao Algarve. A respiração de Luís era quase imperceptível, o seu corpo só gemia... Apesar de os ter motivado, parecia perdido.

Mas não! Eis que, do céu, surge um PENEDO. Com olhos. E capa vermelha. E calças de ganga. E sensatez. Era Penedo, o Super-Calhau.


- Hulha! Está ali um jazigo! - gritou SoDonaJu.

- E olhem as suas calcites! - exclamou Serza.

- São de ganga! - gritaram em uníssono.


[Nota dos autores] Para quem está desatento, "calcite" é um mineral e "ganga" é o minério não-aproveitado. [/Nota dos autores]


Os amigos ajudaram Luís, rejuvenescido, a levantar-se, para ver aquela maravilha. Riram muito. Abraçaram o calhau. Cantaram. Atiraram uns paus.

— Olá meninos! Estão todos bons? Vocês sabem que gosto muito de vocês. São as melhores pessoas que já conheci. Vamos ao que interessa: Tenho um anúncio muito imp... - mas o Super-Calhou foi interrompido por uma voz cavernosa, Deus.

- Cala-te Super-Calhau... O Super-Calhau está ali cheio de sentimentalismos, para dizer algo tão simples como "sou um fraco e vou morrer."  Pois é! Tal como qualquer ser humano (coisa que o Super-Calhau não é nem de longe nem de perto, apesar das calças) - e tirou-lhas -, o nosso grande herói, que ao mesmo tempo é um calhau, também vai morrer. E de quem é a culpa?

- Do Só... - começaram por dizer os meninos.

- Nãããããããããããoooooo! Não é do Sócrates... É de toda a raça humana. Os humanos perseguíram o Super-Calhau durante toda a sua vida e agora que está acabado é que os humanos o deixam em paz. Que marotos! Esta proposta que vos fiz através dos meus agentes sinistros para um paper era uma tentativa de salvar a raça dos Super-Calhaus! Mas demoraram muito tempo, só sobra este espécime. Eu tentei que vocês se apressassem, mas o prazo passou... O Calhau vai virar areia.

- É verdade, Deus. A pedreira de onde venho agora é uma piscina de criptonite. Usada para efeitos de lazer pelo Jet-7 de Viseu.

- Por falar em lazer, já estamos a entrar em horas extraordinárias e ninguém nos paga a dobrar, por isso, Adeus! - concluiram os nossos investigadores.

- O Super-Calhau quer ser sócio da selecção?! xD - katia T.


Epílogo:

O paper acabou por ser publicado, na sua vertente ainda inacabada no Cambridge Yearly Review, em destaque de capa. Isto foi há vários anos, há rumores no mundo académico de que se tivesse sido terminado teria feito à Geologia o que Perseus fez à Medusa. Há registos de avistamentos de Calhaus voadores, mas não há relatos fidedignos de comunicação direta com esses seres agora mitológicos.

Cátia Amor-Amor foi dada como desaparecida, mas foi encontrada uma mensagem cifrada no Spa de Freixo de Espada-à-Cinta:

"Parabéns por este início de paper fantástico, já me ajudou bastante. Está muito claro, de uma maneira relaxada, descontraída e também muito simples. Espero que o terminem. Se fosse adoptada uma "postura" mais cientifica, estou convicta de que iria ser um paper mais aborrecido e certamente que não estudaria por aqui como fiz, pois o livro já apresenta a matéria com essa "postura" mais cientifica."

- Bem siceramente eu não veijo diferença nenhuma entre o paper e o livro, apenas que existem referências antigas e recentes e as alterações que eu veijo cuncidero que são naturais tendo em conta que existem ciclos na Natureze, e nada fica igual, tudo se move, por isso essas alterações são perfeitamente naturais... - afirmou Joaninha, parola e invejosa do sucesso dos nossos campeões da Ciência, ao ler o recado do além. E nisto cai-lhe um Penedo em cima.

28 August 2019

[BURLA #2] Uma semana conturbada no Olimpo

Muitos de vós já sabem a nossa opinião sobre a tradução da nossa história canónica "A ambrósia mal-amada" para o francês. Desde a escolha polémica do título (diga-se que nunca foi sequer explícito que se tratou de "uma semana"...), a mudança de nome de alguns personagens (o nosso Hades passou a chamar-se Coraçãozinho de Satã...), ou a introdução demasiado óbvia de referências à música POP portuguesa dos anos 80.
É com nojo que reagimos ao sucedido: a nossa tradução do francês "Une semaine conturbais dans L'Olimpe" ou lá o que é, já com problemas, está a ser reimpressa em Portugal, no Brasil e nos PALOP como "Uma semana conturbada no Olimpo", sendo que o burlão assina a história com o seu nome (que não vamos colocar aqui porque é desnecessário citá-lo de forma direta). Pensamos que o próprio burlão não sabia que o original já era em português, daí ter traduzido para a língua original.
Enfim, é um caso caricato este em que nos vemos envolvidos.

Uma semana conturbada no Olimpo


Ouviu-se o divinal suspiro de Vénus. Tinha preparado um banquete para três, mas Marte nunca mais aparecia. Estava já de rolo massa na mão quando chegou Coraçãozinho de Satã.
- Querida Vénus, que bela refeição me apresentas!

Ao mesmo tempo, em Namek, Marte vestia-se.
- Marte, fica mais um pouco, o Orfeu ainda demora - mas Marte já saía.
- Euridice - disse Marte, sem nunca olhar para trás - tu continuas à espera do melhor que já não vem. Ouvi rumores de que a cabeça decepada do Orfeu continua a cantar por ti, enquanto desce o rio Evros.
- Que maus agouros me trazes! Desaparece daqui!

- Vénus, tu estás só e eu mais só estou, e há uma noite para passar. Porque não vamos unir-nos? Porque não vamos entrar na aventura dos sentidos? Tens a minha mão aberta à espera de se fechar nessa tua mão deserta.
- A esperança foi encontrada antes de ti por alguém, Coraçãozinho de Satã. O meu amor é o Marte.
- Vem, que o amor é o momento que o faz, e eu sou melhor que nada!

Nisto, entra Marte em casa, e prontamente leva com o rolo de massa na tola.
A comida já está fria! - gritou-lhe Vénus.
- Desculpa o atraso, fui buscar a sobremesa, este belo pudim.
Vénus aproximou-se e cheirou o pudim. Marte perguntou-lhe:
Então? É ambrósia?

Anos mais tarde, Marte cavalgava um unicórnio com o pudim no regaço; estavam a caçar javalis alados. Marte avistou um e disparou uma flecha, que acertou no lombo do javali.
- Vês, filhote? O segredo para caçar um mortal é este: fazes-lhe uma ferida profunda, e depois esperas que ele se esvaia em sangue. Nós temos tempo, podemos ser pacientes, eles não.
Eventualmente apanharam o javali, ataram-no a uma pata traseira do Pégasus e começaram a voltar para casa. Até que:
- Paizinho, eu sei que fui adotado.
- Adotado?! Eu mesmo te concebi, com toda a minha pujança! Eu, Marte, Deus da Guerra!
-Sim, paizinho. Reconheço as minhas feições em ti. Mas a mãe... ela sempre me trincou a torcer o nariz. Nunca me apreciou como a sobremesa divinal que sou, muito menos como seu filho.
Oh pudim, tu não és fácil de amar. És... um gosto adquirido.
Com isto chegaram a casa. Vénus preparava a mesa, só para dois.
Ele trouxe o pudim outra vez ... - resmungou.
Marte e o pudim entraram em casa e pousaram o javali na banca. Estava um ambiente pesado enquanto removiam as entranhas do bicho. Quando já não dava mais:
Marte, quero o divórcio. Eu sei que confecionaste esse pudim com o rolo da Eurídice.
Por Zeus! Por quem me tomas?!
Seja como for, eu preciso de experimentar novos sabores, sou uma jovem ainda. Contigo é sempre pudim! Adeus Marte!
Vénus preparava-se para sair de casa enquanto Marte chorava num canto, até que o pudim interveio, num rasgo de heroísmo pouco comum em Homens ou Deuses.
- Papás, não tem mal, eu próprio me como. Preciso apenas de três coisas: uma colher, canela, e um beijinho de despedida.
Ainda de lágrimas nos olhos deu a primeira colherada.

[BURLA #1] Márcio Bros

Esta semana um leitor felicitou-nos pelo nosso trabalho na saga "Márcio Bros.", dizendo que tem os dois primeiros volumes, datados de 2014. Foi com espanto que lemos a sua carta, uma vez que nunca publicámos tais histórias. Pedímos ao leitor que nos enviasse uma amostra dessas histórias, e ele facultou-nos a primeira página de cada uma, que colocamos nesta publicação.

Podem notar que é uma forja bem conseguida, imitando o nosso estilo de "Confusão Parva" mais prevalente na nossa fase (ainda anónima) de 2006 a 2012. No entanto a história data de 2014, um período de inatividade criativa da nossa parceria e, ao lerem a história com atenção, irão notar que a história não parece ser escrita por duas pessoas (como é nosso hábito) mas por, pelo menos, oito mãos descoordenadas. 

Não nos iremos alongar na análise para já, mas o Crow está a preparar uma redação para ajudar o comum leitor a apanhar este tipo de burla.

Márcio Bros. I: Márcios vão à missa ateísta e acabam num chalet


Os irmãos Márcio estavam desejosos de provar que eram machos através de um feito inédito. Canalizadores de renome como eram, decidiram participar num pornô usando um instrumento conhecido como o “Cofrinho mágico”. Dentro do “cofrinho” encontravam-se uns coletes de cabedal, três perucas vermelhas e um bonito dragãozinho com um sabre, Yoshi-mitsu.
Estavam a sair quando surge um desajeitado par de mamas.
- Olá! - cumprimentou a moça, escorregando na casca da banana do famoso irmão dum outro Luigi, esse com bigode - Viram R. Dawkins? Abusou de mim ontem e nem sequer ligou depois.
- Ohmeohdels! - exclamou Luigi - Estive na missa ao seu renascimento como Penedo e vi uma donzela cheirosa com três pelinhos no queixo. Miei-lhe muito, dancei a “marrabenta do amor” e perguntei-lhe o nome. Chamava-se Salamona, e tinha uma grande...
- CUIDADO COM AS POUCAS VERGONHAS!
- MINHAS VERGONHAS NÃO SÃO POUCAS!
- Luigi, acalma-te lá antes que te fique a laringe inflamada e não possas comer torresmo. - advertiu-o Márcio.
Torresmo e seios era o que Salamona gostava. O que era estranho, visto que, de facto, tinha uma grande árvore plantada entre os mais carnudos fêmures ja vistos na Marciolândia. Tinha comido todo o torresmo mais gordurento que encontrou e se preparado para a sensacional película pornográfica dos irmãos Márcio.
[fim do excerto]

Márcio Bros. II: Márcios fazem uma tour do amor pela Península Ibérica

Márcio Márcio e o mano Luigi Márcio decidiram dizer às suas esposas “Salsicha saltitona, livra!” e agarraram numa machadinha e mataram-nas. Ingerir demasiados cogumelos numa madrugada de lua-cheia é propício de ânsias sanguinárias generosas em maionese.
- Luigi, estamos livres! As meretrizes com os peitinhos cobertos de margarina do bairro nojento de Viseu, que parece um pantanal, esperam-nos!
Luigi lambusava-se. A baba acumulou-se até inundar o pensamento de Márcio: queria moças roliças, embora fosse divulgado que, abaixo da Galiza, algumas delas escondiam uma potente quantidade de pelugem. Itália, ora sì guardami, há muito desesperada pela depilação mundial, atira um Penedo, ou dois, conforme ...
- Acorda Márcio! Estavas a encavacar. Chegámos ao Pingo Doce e o bairro do prédio porcalhão, frequentado pela alta-média classe, aprochega-se - gritou Luigi.
- O Borgório anda a fingir que faleceu - avisou a motorista - mas procurem-no que um espécime machão papou-me e recomendou-o.
- Isso é anti-natura! - disse o Dave Grohl, raptando a senhora para formar um supergrupo de cozinheiros hermafroditas.
Os italianos seguiram, sozinhos, para o bairro alto para comerem pudins e vislumbrar senhoras. Avistaram um ganso a ser afogado nas suas mágoas.
- Que se passa? Porque afogas o ganso da tia Clotilde? És o vil Borgório? - inquiriu Luigi Márcio, triste.
Fechando a braguilha, Márcio Márcio saca uma navalha das ventas de Luigi e esfaqueia o marido de uma robalo, que cometia poucas-vergonhas. Riu-se do sucedido quando a robalo interveio:
- Drip bloop!
Frustrado, Borgório jurou abandonar o disfarce! Mas Zeus fulminou-o, deixando-o sem o disfarce de todo. O ganso agradeceu. Rafiki ergueu Simba, mas enganou-se no animal, erguendo o tostado Borgório e o tornado bóhrio, quase deixando-os cair.
- Caruma, caruma, caruma, perdi a minha pratada de bacalhau-com-natas - reclamou Luigi, vestido de pequenas rodas.
Pouco depois ele avistou uma formosa senhora à janela. Peitinhos de perú caíram do céu de tão bela que era: clip clop squeak! O seu nome era Andrej Pejic.
- Bonsoire, Andreia Pevide! - cumprimentou-a Luigi Márcio - Je mápéle Luigi. Voulevous coucheavecmoi, c'est soire? - mostrando a sua fluência linguística.
- Vêm-me às fuças! - acrescentou Andrej, carinhosamente.
Ao mesmo tempo, Márcio Márcio prescutava uma série de asiáticas jeitosinhas.
- Apetite! Nada como japonesas, ou qualquer jovem de olhos em...
- Alto! - gritou a robalo, invejando a atenção - dou-te uma facada! Que vem a ser esta parada de gueixas?
Marcio chateou-se e usou a dentuça do seu pai, de edição limitada, para a devorar.
- Ai, despacha-te Marcio, o bordel vai fechar! - avisou uma das japonesas gostosonas, que cheirava a amor - Não tenho tempo para me preparar para plantar batatas, anda lá que vamos caçar gambozinos.
Dirigiram-se os dois para a casa do Dunkel com uma inflamação na virilha. Dançaram muito flamenco até o dentista chegar:
- Dr. Dunkel, queremos fazer o amor sem recorrer a pasta dentífrica. Que outro estimulante recomenda?
- Vietnamitas irreverentes diriam que a escolha pode ser feita enquanto perus indagam. Portanto, recomendo gasolina.
Márcio apressou-se a adquirir o elixir fazendo o pé-coxinho em direção à Galp
[fim do excerto]

28 June 2019

O futuro de Toy Story

Toy Story 4 está nos cinemas. Independentemente da qualidade, terá sido necessário? Depois de o vermos, duvidamos. Mas existe e, conhecendo o modelo de negócio da Disney, é quase impossível que seja o último. Em seguida publicamos resumos dos próximos capítulos da saga que nos deu a magia da Pixar, com o objectivo de permitir aos nossos leitores poupar créditos na sua visualização.

Toy Story 5 - no final do filme mais recente a Bo Peep tornou-se nada mais nada menos do que um Messias, uma Moisés prestes a salvar os judeus do Egípto. O filme anterior começa com ela já com vários discípulos, aos quais se juntou agora Woody, que é indivíduo muito determinado e cheio de ideias; é mais que óbvio que não faltará muito para começarem a percorrer o mundo na sua doninha telecomandada a espalhar a boa-nova de que os brinquedos não precisam de viver na escravatura e nas garras das crianças para serem felizes.

Toy Story 6: Toy World - dada a Natureza própria dos brinquedos lhes permitir mexerem-se muito bem nas sombras, e o facto de já existirem tantos sem crianças/mestres, a Revolução demorou algum tempo a ganhar ânimo, devido a crenças que estavam no âmago plástico de todos, mas a partir de certo momento o seu desfecho era inevitável: quase toda a Terra foi dominada por brinquedos, havendo nações onde as crianças são tratadas melhor, outras onde são tratadas pior, além de territórios sem governo onde algumas tentam formar uma resistência. Woody, enquanto reflecte sobre o novo estados das coisas, parte em nome de um par de ténis de Andy para lá escrever o seu nome.

Planet of the Toys - uma criança da Terra é enviada para o Espaço e, passados X anos em hibernação, aterra num planeta dominado por aquilo que na Terra eram designados "brinquedos". Segue-se uma sequência de eventos digna de um qualquer episódio de Star Trek com uma Terra alternativa, mas, para uma audiência culta, a inspiração mais importante, e consequentemente o final, será demasiado óbvio; após o surgimento da Statue of Liberty numa praia, e um momento eureka para o protagonista, o filme fecha com um ecran negro e no centro do mesmo, passado uns segundos, o logo do costume: Toy Story 7.

Toy Story 8 - um brinquedo, cansado de ver o modo como os humanos são tratados, deseja fazer a Paz com as crianças, “não são assim tão más”. As crianças, que passaram décadas em isolamento, em que mesmo os brinquedos que elas criavam a partir de lixo lhes fugiam, regressam a um estado selvagem e brincam só com ossos e pedras simples.

Toy Story 9 - um monólito (com o logótipo da Pizza Planet) aterra ao lado das pedras e dos ossos e estas ficam sencientes; também fogem.

Toy Story 10 - um remake-sequela dos três primeiros Toy Story ("só esses é que são canon", diz numa conferência de imprensa John Lasseter, cuja consciência digital agora vive num candeeiro de secretária idêntico ao Luxo Jr. mas chamado Luxo Sr.), em live-action, devido a demasiados plot holes, inconsistências e guiões manhosos terem levado à saturação por parte do público. Por motivos enigmáticos, a sequência numérica não é interrompida.

Toy Story 11: Days of Andy's Room Past - os brinquedos de Toy Story 10 reúnem-se com os brinquedos de Toy Story 1-3, tendo o grupo de lidar com uma ameaça que envolve sentinelas nos refeitórios e recreios das suas crianças.

Toy Story: Toy Park - o Chris Pratt leva os sobrinhos à Disney mas os animatronics dos seus brinquedos favoritos estão vivos: há velociraptors. Por motivos enigmáticos, a sequência numérica é interrompida.

Toy Story: Toy Park 2: Toy World - apesar da carnificina do filme anterior, Chris Pratt leva os sobrinhos ao novo parque da Disney, onde uma nova atração está prestes a ser revelada: Indominus Woody, um animatronic modificado geneticamente.

Toy Park 3: Parking Toys (working title: Fallen Toys in the Kingdom of Ohbydus) - apesar da carnificina do filme anterior, Chris Pratt leva os sobrinhos a Óbidos, onde a recriação medieval de Verão é agora encenada recorrendo a animatronics que a Disney vendeu ao desbarato. A justa é protagonizada por Wheezys (a Disney descobriu um armazém cheio de action-figures de pinguins em Emeryville, CA), mas os RC onde eles estão empoleirados não parecem muito contentes por não os deixarem simplesmente estacionados. Um estágiario fez notar ao candeeiro Lasseter que Toy Story 6 já tinha o subtítulo Toy World e o mesmo foi abandonado; o estagiário foi despedido.

A Toy Story: Toy Story 17 - apesar das críticas não serem favoráveis às sequelas de Toy Park e os seus enredos progressivamente mais absurdos, os filmes são um sucesso de bilheteira e é decidido fazer um novo remake. Desta vez é um drama, lançado em Novembro e com claras pretensões a vencer Oscars. Steven Spielberg, em busca do seu 23º Academy Award de melhor realizador, aceita guiar o barco e em troca desiste de um processo legal referente ao plágio de uma sua dinossaurica propriedade intelectual; "foi uma súbtil homenagem", diz. Na nova história, um homem, Dany, interpretado pela bisneta de Tim Allen, acha que é um brinquedo. Por motivos enigmáticos, a sequência numérica é retomada, mas o candeeiro Lasseter faz as contas mesmo antes das pilhas darem o berro.

23 February 2019

olá - uma saudação das mais usadas

As primeiras palavras que surgiram (foram): Quem, são, serão, dois, talvez, não.
Olá: uma saudação das mais usadas

As cuecas da Tia Cláudia, casada, (tinham) as notas de Soichiro.

- Uma salada de tomate?!
- Bem boa!
- Comeria duas lampreias...

Disseram:
- Oh, já está fixe o vídeo dos Tame Impala!
- Filmei sem consciência.
- De que começava a chover?
- Não, está bastante Sol até - (concluiu o) senhor de chapéu roxo que mastigava salsichas.

- Não temos aqui batatas fritas? - os pequenos dinossauros pediram à cabeça da FKA Twigs.


(original)

As primeiras palavras que surgirem são / quem são? Serão? Dois talvez não! Olá, / uma saudação das mais usadas / estavam as cuecas da Tia Cláudia, casada / com as notas de Soichiro, uma / salada de tomate! Bem boa, comi duas / lampreias disseram: "oh, já está / fixe o vídeo dos Tame Impala. Filmei / sem consciência de que começava a chover? / Não, está bastante Sol até, Senhor / de chapéu roxo que mastigava salsichas? /  Não, temos aqui batatas fritas. / Os pequenos dinossauros pediram a cabeça / da FKA Twigs.

A ambrósia mal-amada

Vénus esperava Marte, de rolo de massa na mão, mas não havia meio de ele chegar.

*
- Não vás embora!
- Tenho Vénus de rolo de massa na mão à minha espera e esta música é bad omen, é melhor ir.

*
Vénus deitou-se.

*
Marte chegou a tempo de ouvir o eco perguntar:
- Marte? És tu? Volta para...
Marte não voltou. Comi e caguei, tou satisfeito.
[Pausaram para uma jam com os Animal Collective]
- A tua mulher tem saudades for reverent greeeeeeen...
twigs tão intenso que tenho de comer uma batata-frita
- Calma Marte, vê lá se não
#momento de composição de "olá - uma saudação das mais usadas"#

*
Marte chegou a tempo de ouvir o eco perguntar:
- Marte (arte-arte)? És tu (uu-uu)? Volta para... a cama, vá (áá-áá).
Marte voltou. O dia tinha sido intenso, Zeus pediu-lhe para ajudar com o IRS, agora tinha de ser tudo na net. Crónica talvez indigna de uma mitologia nórdica, mas no Olympos trabalhamos com o que temos...
Deitou-se, e enfiou os pés gelados nas costas da Vénus.
- DESGRAÇADO! POR MARTE! ARRE!
Acontecia todas as noites!
- Desculpa, eh eh! Dá cá beijoca ao campeão!
Vénus atirou-lhe o rolo da massa à tola e virou costas.
Marte enfiou-lhe os pés outra vez.
- Agora já estão bem, amor =D! - beijocou Vénus.
Passados três banquetes e um tapete, Marte lembrou-se:
- Traí-te com Eurídice, a guitarra alada. Dessa união nasceu um pudim.
- Deixa-te de fantasias e possui-me!
- Pxee! Este pudim pode levar-nos ao trono! Que opinas tu?
- Tou 100 paciência para que não faças o Amor comigo, a poderosa e formosa Vénus!
- Não t'entendo, faz o que queres mulher, com a almofada! Eu cá vou-me levantar e fazer-me ao dia.
Hades esperou, e saiu do armário.
- Quase nos apanhou! Meu anjo, estou aqui escondido há sete séculos, tenho de ir ao kebab comprar uma chamuça.
- Outro! Nem marido nem amante me dão! Vou usar a mão!
- Err... ok, bora lá! - disse a mão.

*
Marte subia o Olimpo descalço. Via ao longe Zeus, imponente.

*
- Olha quem ali vem!

*
- A chama arde sem fogo.

*
- É o Marte?
- Sim, vem nu! - disse uma gaivota desnorteada.
- Ah, parecia a Morte!
- Não, é o Marte!

*
Assim se passava um dia bem passado na Grécia. Mas, às vezes, também surgiam intrigas!

*
Orfeu saía do Inferno, de mão dada com São Vicente.
- Abandonou a Eurídice?
- Não, essa estava com o Marte há bocado! Nós vimos para o bingo - disseram um conjunto de deuses inconsequentes.
- "Vimos" ou "viemos"? - tossiu Hades.
- Hades, cheiras à minha dama!
- São chamuças, por quem sois!
- Como saberei agora? Se é chamuça ou perfume da Dona Vénus, minha mulher?
Uma situação bicuda. Só um a poderia resolver: Pepe Larigot.
- Alguém o vá buscar aos mortais!
De imediato surgiu o Über de Zeca Zé. Uma porta abriu-se e um corpo desmanchou-se.
- Deixo-vos aqui esta encomenda, está bezano mas disse que fazia aqui falta. São duas cascas de banana.

*
Apresentavam-se ao tribunal: Hades, Vénus, Marte e Pepe Larigot.
- CULPADO! - gritou Osiris.
- Calma, aqui é a Grécia! Inocente até prova do contrário. Oh Osiris, tu vens aqui e achas que mandas? - inquiriu Zé, ou Zeus. Osiris foi expulso do monte.
- Já conhecemos a acusação, as provas e os contra-argumentos. Para resolver o conflito, sugiro que Vénus decida.
- Decidir o quê?
- Este pudim, é ambrósia ou quê?!
- Vou provar.
Pegou no pudim, filho de Marte, e cheirou:
- Sabe a feedback elétrico.

*
Outro dia, Vénus duchava-se.

*
Anotha day, anotha dollah, lembrou-se Marte a meio de uma caçada ao javali. Ia com o pequeno pudim ao colo.
- Vês, petiz, é assim que se faz a mamã feliz, caçando para ela. Amo-a muito, a minha pequena Vénus.
O pudim, que já contava com 37 anos e algum bolor, não falava à mãe desde que saíra do molde. Encheu o peito de coragem, virou-se para o papá e cantou:
- Pai, eu sei que sou adotado.
- Não usei adubos nem especiarias, concebi-te, eu mesmo, Marte, Deus da Guerra!
- Mas a mamã... quem é?
- Ah! É a tia Eurídice, já falecida. Desculpa filho, é difícil. A mamã Vénus forneceu o rolo de cozinha.
- Papá, ela sempre me comeu a torcer o nariz. Nunca me amou como sobremesa excepcional que sou, muito menos como filho.
- Oh filho, tu não és fácil de amar. És um gosto adquirido.
Com toda esta conversa já estavam a chegar. Vénus tinha a mesa para dois só.
- Veio o pudim... - lamentou.
Entraram. A tensão estava no ar, grossa como...
- Como eu! - interrompe Marte.
Sentaram-se. Velas decoravam a sala, incenso ardia, uma orquestra entrou.
- Marte, tenho muito que te contar. Encomendei um armário novo e o divórcio. Estou farta que tragas cá esse pudim! Preciso de experimentar outros sabores! Sou uma jovem ainda!
- Mas ele é teu filho! Vénus, o erro é nosso! Não me culpes pela fraca concepção.
- Usaste o rolo da Eurídice, isso sei eu..
- Vénus, come for me, oh
               come for me, Venus
               come for me, oh
               come for me!   
A orquestra tentava ajudar a salvar aquele casamento divino. O pudim interveio:
- Papás, se é assim, eu próprio me como hoje. Mas preciso de três coisas: uma colher, canela, e um beijinho de despedida.
De lágrimas nos olhos mas a abanar o capacete (escutava Knife no walkman) deu a primeira colherada.

*
Hades massajava Zeus quando este sentiu uma presença.
- Zeus, isto aqui é uma balburdia! - resmungou Osiris - Venho com o Anubis para tomar conta.

*
- A partir de hoje - gritava Osiris, no topo do Olimpo - isto vai ser diferente, coiso e tal. Um dente por um olho, é a nova lei.

*
- Ouviste? Agora Osiris manda e tal - comentou Marte à mulher, durante o almoço. Falava com uma vassoura, de peruca e vestido. Vénus tinha-o deixado há 63 luas, levando consigo o rolo.

*
- Pepe Larigot perguntou à Morte:
- Quanto falta?
- Apenas a noite.......
- Boa-noite então.

Divinal suspiro de Vénus


Mickey Mouse, num guardanapo, pensava:
- (Sou) feliz!
Desde que o sumo não faltasse...

Larigot lembrava um leitãozinho a mamar.
As tetinhas tinham leite (mas era) para o bezerro (se) manter.

Uma quinta-feira à noite:
- ALL ALONG THE WATCHTOWER...
- Homem, traz-me as chaves para a compreensão! Com suminho era divinal - suspirou Vénus - Marte, liga lá o carro, amor!
- Não chega tinta no dedo para fazer uma lei!
Vénus tinha saudades (d)as migalhas que sujavam o casaco de Larigot.
Caíram os dois no Inferno de Hades.
- Olá! Bem-vindos! Este é o hino nacional!


(original)

Mickey Mouse, num guardanapo, pensava, feliz, / desde que o sumo não faltasse. Larigot lembrava / um leitãozinho a mamar nas tetinhas / tinham leite para o bezerro. Manter uma quinta /-feira à noite. Homem, traz-me as chaves / para a compreensão: All along the watchtower com suminho era divinal / suspiro de Vénus. Marte, liga lá o carro amor! / Uma lei para a qual ele não nos faz uma / tinta no dedo. Vénus tinha saudades de quando / as migalhas que sujaram o casaco de Larigot caíram / os dois no Inferno de Hades. Olá! Bem-vindos! / Este é o hino nacional!

Está na altura de pintar a parede

Pepe Larigot estava triste porque viu a (sua) guitarra partida. Algo estava errado, (mas) já deu certo.
Larigot lamentava (agora) a perda da fome.
- As batatas sujavam tudo! (Mas) era incrível o sabor da batata camponesa... Que...
(Nisto), comparece à hora marcada pelo maior escritor, António Mega Zé, o Zeca da Über.
- Agora trabalho!
- Para quê tanta força a abrir um sumo? Calma!
- É preciso fazer força.
- Mas com jeitinho!...
- De andorinha a voltar?
- Nao, (com jeitinho de andorinha livre) a levantar voo na Primevera.
- Está na altura de pintar a parede?


(interpretação superficial da obra complexa)

Pepe Larigot representa um homem em forte conflito interno. No final das suas ações, tem satisfação momentânea que rapidamente desaparece para dar lugar à tristeza e nostalgia. Pepe pode também representar um anti-utilitário: o que interessa não são os fins, que são sempre insatisfatórios, mas sim os meios. É um personagem com aparentes contradições lógicas: (a) parte a guitarra porque o estado completo da guitarra era "errado", ficando "certo" depois de fragmentado - talvez como o próprio Pepe - (b) lamenta "já não estar com fome", sendo que normalmente o estado "estar com fome" é o não-desejado pelo Homem comum e (c) apesar das batatas o sujarem todo, há algo no sabor da batata que...
O encontro que parece furtuito entre Pepe Larigot, o homem introspectivo, com Zeca Zé, o homem quotidiano, é, na verdade causado por um "grande escritor". Nunca são revelado os verdadeiros motivos de António Mega (talvez um alias para algum escritor real, ou talvez uma metáfora que não necessite de mais precisão), pelo que ele permanece um personagem misterioso nesta obra. De notar que o seu nome "Mega" reforça a ideia de ele ser "grande". Este jogo de nomes está também presente no nome de "Zeca Zé", que, em oposição a "António Mega" (os nomes aparecem de seguida no texto) reforça a sua pequenez. No entanto, é Zeca Zé que "trabalha" na Über. Pode haver aqui duas alusões possíveis: (a) Zeca Zé é um "escravo" dos Grandes Homens ou (b) o próprio Zeca Zé é o über-mensch. Dada a continuação da obra, apostamos mais na opção (b), apesar de ser inconclusivo o nosso breve estudo.
Zeca Zé inicia o diálogo com Pepe Larigot anunciado que "agora trabalha!", o que denota que Pepe e Zeca já se conheceriam e que Zeca, talvez ao contrário de Pepe, está a conseguir alinhavar a sua vida.
A referência a um "sumo" é talvez o ponto mais alegórico desta pequena magnum opus dos autores. Pepe, um homem sensível, está chocado com a brutidão como Zeca Zé leva a sua vida. Pepe tenta apelar à suavidade, fazendo uma comparação com andorinhas, um bicho muito sensível e fofo. Também é feito um novo contraste entre Zeca Zé e Pepe Larigot: Zeca Zé comove-se com a "chegada", enquanto que Pepe Larigot prefere a "partida".
Por fim, Zeca Zé dá mais uma vez um exemplo do seu sentido bruto e prático: "chegou a Primavera? Está na hora de pintar ali a parede oh Pepe!"
Outra interpretação possível do final: Primavera significa renascer, coisa que Zeca Zé já conseguiu (arranjando um trabalho) mas que Pepe Larigot ainda não. Zeca Zé pode estar a tentar puxar o seu amigo, para potenciar o seu renascimento.


(original)

Pepe Larigot estava triste porque viu / a guitarra partida. Algo estava errado / já deu certo. Larigot lamentava a perda / da fome. As batatas sujavam tudo, era / incrível o sabor da batata camponesa / que comparece à hora marcada / pelo maior escritor António Mega Zé, / o Zeca, da Über. - Agora trabalho para / quê tanta força a abrir um sumo? Calma! / É preciso fazer força, mas com jeitinho / de andorinha, a voltar livremente na Primevera, / está na altura de pintar a parede.

Três diálogos sobre Naturalismo

I. Música e culinária - calvice (Naturalismo artístico)
O solo de bateria ecoava das paredes amarelas e tal.
- Olha o Jimmy Kendricks!
- ... estou farto desses rappers todos!
- Alguns (até)...
- Nenhuns! (Prefiro) sopa, bife, pão...
- E azeite? E vinage balsámico? Só faltava sal...
Mas depois, uns dias mais tarde, viu Pepe Larigot - era um problema recorrente para a atriz.
Tirou a cabeleira postiça, era careca.

careca - alguém que carece pilosidade a nível 25


II. A Evolução no século XXI
- (O meu) Charmeleon ia evoluir para Charizard!
- Brilhante! De primeira edição?
- A carta? Mais ou menos...
- (Meu) Deus!
- Acho eu...


III. Breve rejeição do sobrenatural
Russell tossiu:
- (Somos) almas... apenas...
- (E) Deus? - Liebniz pergunta.
- Nada.


(original)

O solo de bateria ecoava das paredes / amarelas e tal. Olha o Jimmy Kendricks... / Estou farto desses rappers todos, / alguns, nenhuns, sopa, bife, pão e azeite / e vinagre balsámico. Só faltava sal, mas / depois, uns dias mais tarde, viu Pepe Larigot. / Era um problema recorrente para a actriz / tirou a cabeleira postiça - era careca, / alguém que carece pilosidade a nível / 25, Charmeleon ia evoluir Charizard / brilhante, de primeira edição a carta mais / ou menos Deus, acho eu, Russell tossiu: / - almas... apenas... Deus... Liebniz pergunta... / Nada.

O temível Dr. Bioderma

Nuno Coutinho, oficial de Pesquisa e Busca, preparou o material. Dispôs tudo à sua frente por ordem cronológica:
bananas, dados, fisga (1x), kangaroos (2x), mantinhas, pistola e guardanapo.
Saiu de casa. Estava de chuva. Com o pé sentiu a temperatura da água numa pocinha. Como num neo-noir, puxou o colarinho e sussurrou:
- Isto é obra de bandidagem da grossa! Apressemo-nos!
Andou dois quarteirões e viu, no ponto-de-encontro, os compadres Pereira da Cruz e Victor Cordon. Só faltava o Penedo, agente. Coutinho ligou-lhe:
- Vens?
Não houve resposta. Começaram a ouvir um sibilar vindo do esgoto. Cordon baixou-se e espreitou. A tampa saiu disparada, atingindo-o na cara. Era uma sorte, pois Cordon era uma ilusão sensorial: só lá estava Coutinho. Penedo chegou de Über.
- Então? Ligaste mas estava em reunião.
- Não te lembras? É hoje que os maus saem do esgoto, que a escória sobe à superfície! O Cordon já se aleijou, o Pereirita fugiu...
Penedo estava já habituado aos devaneios do compincha. Agarrou-lhe no braço e gritou-lhe no ouvido:
- Amália levou-te a dançar? Vamos lá ter juízo!
- Entram ou quê? Quem estará a dizer isto? Sou eu, o fiel condutor da Über, Zeca Zé! Precisam de boleia?
Coutinho pegou no primeiro item: a banana. Comeu e deu a casca a Zeca Zé.
- Ajude-me a refletir: a tampa repete um slogan: "Beb'a vida": dois pontos: .."
- Ok? Não estou a seguir, mas esta casca leva-vos até ao esgoto Vamos?
- Sim! - uníssono cantado à tirol.
Entraram, para dentro, do esgoto, e estava lá um queque gigante.
- Qu'é qu'eu sou? - perguntou Bertrand Russell ao bolo. O queue explodiu, nutrindo os heróis.
- Não é aqui, vire à esquerda - disparou a pistola. Pode-se falar em morte assistida?
Este acto terminou a vida airosa dos protagonistas. Era tempo de apanhar o temível...
- Dr. Bioderma! Nãããããããããã... ah, sim. Olá!
Dr. Bioderma apareceu, encasacado e furioso, do capot do Über. Zeca Zé não tinha revisto o óleo, achou melhor dar à sola.
- Sôtor, viu por aqui bandidos? - perguntou Coutinho, sempre de chalaça.
- Vi-vos a vocês! Seus patifes, sabem bem o que fizeram, armados em detetives mas sois patifes, bem vos conheço. Ai!
- Oh doutor! Foi super queer em 1996? Essa coxa não engana!
- Respeitinho! Eu agora licenciei-me em Bio-Químicas, deixei-me disso. Mal vocês sabem da fama das minhas extrações de pele (a derma). Têm fama, chega a ser, municipal!
- Oh doutor! Os meus cozinhados.
Calou-se. Para quê palavras, afinal, quando podiam desenhar?


- Como vais pôr isso no blog? - perguntou Diet-L.
Pensei nisso, mas adiante. Bioderma avançou, com uma gravata no bolso.
- É lilás! - apontou.
- Para isso temos dados. Se calhar "chouriça", ganhámos!
Calhou 8, o dado ia até 12 apenas.
- Ah, assim posso pôr-vos a gravata! Tenho +6 em "beauty rolls".
Meteu, ficaram esbeltos.
- Assim como lhe fazemos frente?!
Dr. Bioderma era, de facto, invencível. Só lhes apetecia ir para a disco, abanar o calcanhar.
- Cuidado! - disse Aquiles, do Inferno - não estão a condizer.

*
Acordaram do feitiço, estavam na cama do gabinete do Dr. Bioderma.
- Psicoterapia a esta hora? Não me...
- Cala-te! Olha para o Sol - disseram os kangaroos (3x).
- Ui! Não eram só kangaroos (2x)?! E a fisga (1x)?? - questionou o guardanapo.
- És bolo? Antes eras papel, para limpar as beiças...
- Limpa-te às mantinhas! Meu cretino! Limpa-te às urtigas, quero lá saber - disse o guardanapo. Comeu-se:
- Saibo bem - lambeu-se.
- Olha!
- Diz!
- Nada.
- Ah ok.
- Já sei: alguns preferem urtigas!
O Dr. Bioderma assistia a tudo, estupefacto.
- Eu é só derma, não sei nada do psyche. É na porta ao lado, mas em cima, a doutora Lucinda. Subam degraus, na diagonal, se não vão parar ao Dr. Tanizaki! Ele é só nutrição. Bem haja!