Na taverna, à noite
A Prisão Territorial de Yuma tem uma reputação notória em toda aquela região: intolerável e inescapável!
"Ai o frio geladinho no inverno, ai o calor pró-quentinho no verão, ai os trabalhos forçados, ai e os guardas impiedosos..." - ouvia-se o velho Raimundo a dizer no saloon da Cidade.
"E os gritos a meio da noite vindos da Cela Escura?! E os ruídos trazidos pelo vento quando não se ouve vivalma? Ai! E os tremores inexplicáveis de terra, os mortos e os desaparecidos que aumentam todas as semanas?! - chorava o Raimundo. Até que recomeçou. "Pobre Slinky! A tabaxi que dormia na cela à frente da minha caiu de joelhos no chão do Campo de Trabalho e começou a cavar furiosamente! Sangue a cair das unhas partidas!! Parecia não ver nem ouvir ninguém, a cavar, a cavar, a cavar..."
"E depois, Raimundo velhote?"
"Os guardas chamaram-na à atenção uma vez, duas vezes… Até que um a agarrou no ombro, e ela lançou-se a ele ... dentes à garganta! Mais selvagem do que alguma vez a vi! Foi executada à minha frente. Ai a minha tabaxizinha! Que saudades!"
"E, Raimundo, há quanto tempo foi isso?"
"Foi ontem à noite."
Pelas janelas do saloon entrava som de grande frenesim. Os dois compadres de uísque cambalearam até à vidraça e ficaram de olhos esbugalhados. Lá fora, dois desordeiros causavam enorme comoção: um magrinho rugia desalmadamente e tentava morder os guardas que o pretendiam algemar, o outro, de chapéu de abas largas, ia saltitando num cavalito de madeira enquanto tentava manter-se de pé, gritando "A AFTER É NO URBAN". Passado um instante foram abalrroados por agentes da lei.
Na Prisão Territorial de Yuma, de madrugada
Um lagarto amarrado numa cela da Prisão Territorial de Yuma ouve passos a percorrer os longos corredores do complexo. Olha para o companheiro de cela mas este está demasiado concentrado a fazer render a parca refeição para dar conta de algo tão remoto. Este finalmente levanta a cabeça quando se ouve um grito lancinante:
- NINGUÉM TOCA NO MEU CAVALO! Isto não fica assim, ouviram?!? Ninguém me tira de uma *hic* festa desta maneira e não se arrepende!
Atiram-no a ele e a outro sujeito para dentro da cela e trancam de novo a porta.
- É o meu cavalinho... - de repente vê um lagarto gigante à sua frente - Olá... crocodilo! Sou o Dragon! Ai, não sou nada! Sou o Black, cowboy de primeira linha, herói do velho oeste, gunslinger ao vosso dispor. Onde anda o meu brewing kit? Eu e o meu amigo efffe caihey corvo já estamos a secar… Ei! Não toca, oh orelhas! É o meu cavalinho!
- Hmm, olá, sou o Ditozito e este aqui é o Tak. Ora, bem-vindos! Ahhh, isto é uma prisão mas não há necessidade de nos tratarmos como malfeitores, hahaha… Deixem-me fazer as apresentações. O Tak já estava cá quando cheguei, pelo que percebi soltou uns crocodilos na cidade e eles começaram a comer pessoas. Acho que tinham sido capturados no pântano onde ele reside, de onde os humanos daquela cidade também tinham drenado água. O Tak veio atrás deles e enervou-se, foi o descalabro… Ele fala um bocado esquisito, mas acho que foi isso. Metem-lhe aquilo à noite para ele não morder - e aponta para a mordaça na boca do Tak. Sou um paladin! E estou aqui porque, supostamente, desrespeitei o reino… eu! Imaginem… E vocês, amigos?
- ROAR! FKA corvo!! RAWR ROAR! - grunhe o monstrengo que veio com o Black, enquanto tenta compor um urso de peluche.
- Tu andas nervoso… A ressaca *hic* está a bater-lhe mal. Mas é um party-boy, nem imaginam! Então, o que é que se passa aqui? - perguntou enquanto acariciava a crina do seu cavalo.
- Oh pá, formidável, eheh, mas olha, aqui vai ser difícil continuar a festa, isto é só trabalhar, de sol a sol como se diz. Partir pedra, partir pedra, na igreja não fazia nada disto, não estou muito habituado.
- Tu és um paladino? Muito bem… boa vida. E quem é o teu Deus? - perguntou Black com desdém.
- Deus? São … os velhos deuses.
- Velhos deuses?
- Sim … os velhos deuses, tipo Game of Thrones, tás a ver?
- Não estou a ver, não.
- O Bob Marley é o meu Deus. O lema é “Jah Bless!”.
- Muito bem malta, está na hora de dormir. Amanhã tenho de acordar cedo para trabalhar. -
Black tirou as botas, pôs o chapéu em cima dos olhos, e começou a ressonar imediatamente.
Tak estava irrequieto. Não tirava os olhos de FKA corvo. De repente, começa a rosnar e tentar tirar a mordaça. Mas esta era de couro, e estava muito apertada e trancada com um cadeado atrás. Ditozito foi tentar ajudar, mas fez pior. Ao ouvir passos de guardas, Tak acalmou-se. Decidiu deixar a conversa com FKA corvo para a manhã seguinte.
- Vamos lá acordar! Há pedra para partir! - Black está tão entusiasmado que se engasga com o seu próprio hálito ácido.
O trabalho é pesadíssimo, partir pedra, pegar em pedra, partir pedra, pegar em pedra... enfim, a manhã passa num ápice. Enquanto almoçam, Tak não tira os olhos do corninhos. Black acaba aquele manjar deplorável e avista uma guarda muita jeitosa a servir o rancho. Levanta-se e dirige-se até ela com passos seguros.
- Olhe lá, não apanhei o seu nome.
- Dalila...
Black tenta pensar numa boa dica, mas ainda está meio zonzo:
- E… dá para repetir a sobremesa?
- Uh… penso que não.
- Não dá mesmo? Estava … muito boa, quem fez?
- Fui eu.
- Ah, então está bem.
Na mesa, Tak dirige-se finalmente a FKA corvo:
- Ashreti, ser tu? Tak recordar Ashreti.
- ROAR?
- Tak aqui. Ashreti aqui. Tak e Ashreti juntos.
- Floresta... proteger floresta… RAWR! Humanos… blergh!
- Tak proteger floresta. Ashreti parece não-Ashreti.
- Ashreti? ROAR! RAWR! Sou um werebear! RAWROAR!
- Ashreti doente? - Tak pousa a mão na cabeça de FKA corvo, mas não detecta nenhuma doença. - Ashreti não ter bicho-destruidor dentro de si. Mas Ashreti muito não-Ashreti.
Ditozito tinha-se ido juntar aos prisioneiros que trabalham na oficina.
- Boa vida amigo, aquilo lá é boa vida. Andei 20 anos na mina, até que me deixaram ir para lá - disse um barbudo.
- Como é que posso ir para lá? - inquiriu o rastafari.
- Fala com o guarda Tobias, ele é capaz de te dar a papelada, é o menos mal-disposto daqui. Lembra-te: ele gosta de ouro e apostas. - e cuspiu-lhe tabaco para a testa.
Ditozito levanta-se e vai ter com Tobias, um guarda dragonborn alto, musculado e sempre com um sorriso sarcástico.
- Oh Sr. Guarda Tobias, quero ir trabalhar para a oficina, acho que mereço depois de um mês na mina.
- Amigo, aqui não é o centro de emprego.
- Oh Tobias, não sejas assim, eu assim que escape desta prisão dou-te uma carrada de ouro, Tobias…!
- Escapar daqui? Tu não vais escapar daqui, paladino.
Ditozito olha em volta e vê dois penedos enormes ali perto.
- Oh Tobias, oh Tobias!, aposto contigo que consigo levantar aquela pedra mais depressa do que tu, Tobias!
- Ahahah, não consegues nada, olha aqui para o bícepe! - obrigou-o a apalpar. - Mas e que tenho eu a ganhar com esta aposta?
- Oh Tobias! Ganhas que não vou contar aos outros guardas que és um franganote. Bora nessa?
O guarda pensa um bocado, depois arregaça as mangas, esfrega as mãos:
- Vamos lá!
Ditozito e Tobias posicionam-se lado a lado, e começam a tentar erguer as pedras. Usam toda a sua força mas nenhum deles as consegue içar à séria. Tak sai da cantina, vê que Ditozito está com dificuldade e tenta ir ajudá-lo. Vai a correr, tropeça e cai de nariz no chão. Tobias distrai-se e deixa cair a pedra, enquanto que Ditozito … faz força … fooooorçaaa … e finalmente consegue levantá-la! ARGHHHHHHHHH!!!!!!!
- Isto foi batota! Estava-me a rir daquele lagarto!
- Não sejas mau perdedor, oh Tobias!
O guarda Tobias limpa o suor da testa, estica-lhe a mão e diz:
- Hoje à noite entrego-te a papelada para preencheres.
- Tobias! - e aperta-lhe a mão
Ao jantar, já na cela, Ditozito está ansioso por contar as novidades.
- Consegui que o Sr. Guarda Tobias me desse a papelada para pedir a transferência para a oficina, haha. Isto até não é assim tão mau! Dêem-me seis meses e acho que consigo meter um de vocês lá, eheh - dizia Ditozito, muito entusiasmado, entre garfadas de rancho.
- ROAR! ROWR! - observou o tiefling
- Ok, mas e assim quando podemos partir uma pedrita? - inquire Black, tristonho, balançando no cavalinho.
- Chega. Não mais grades. Sair. Pântano. Voltar. Plano ser: tu - Tak aponta para Black - seduzir fêmea e roubar chaves.
- Fácel! É um bom plano! Gosto, lagarto!
Enquanto esperavam pelos guardas, Tak aproximou-se de FKA corvo.
- Ashreti. Tu lembrar Tak? Nos sobreviver juntos. Pântano.
- ROAR… Raaaaaaawr? - a ressaca e a dor-de-cabeça pareciam estar finalmente a passar; o diabito olhou atentamente para Tak - RAWK! TAK! És mesmo tu? Estamos em tua casa?
- Qual casa do Tak, estamos na prisa, boy. À espera da minha lady - afirma Black.
- Na prisão? Como viemos aqui parar?
- Oh meu, bebeste demais e armaste ganda confusão na cidade.
- Tak, a última vez que te vi … druidas … estavam os druidas no pântano … como se chama … Vux! … tu querias ficar com eles, ficaste com eles?
- Tak é druida.
- Tak é druida? O TAK É DRUIDA!
“TAK É DRUIDA” - um cântico espontâneo inicia-se na cela. O demónio saca de um flask cheio de rum de dentro do urso de peluche. Bebe e faz rodar. Até o lizardfolk se deixa contagiar e bebe.
- Coração rápido por ver-te, Ashreti. Ashreti, tu boa vida?
- Tak, depois de nos separarmos… isto é difícil… bem, no fundo… eu percebi que não era um tiefling… Por dentro, não me sinto, não me sentia um tiefling. Vivi um tempo como tortle, até arranjei uma caixa de cartão para viver, mas isso não resultou, tentei ir para uma praia mas diziam que falava muito depressa. Depois percebi que o meu chamamento era a proteção da natureza, contra os humanos… percebi que era um werebear! - e mostra o urso de peluche - Gostei da areia nos pés, vim para aqui...
- Ashreti é druida? Ashreti entrar em ursos e ver pelos seus olhos?
- Não, Tak, nada disso… a questão é, não sinto a minha identidade representada pelos tieflings, percebes?
- Sim, Tak muitas entidades. Tak entrar em crocodilos, cobras, rãs, e até ursos, como Ashreti.
Foda-se, tirem-me daqui, que personagens que me foram calhar... Bem, finalmente o discurso neo-marxista pós-moderno regado a rum foi interrompido por passadas próximas de guardas.
- Ashreti, nós sair. Agora. Nós juntos. Ashreti, tu werebear rogue? Apanhar chaves dos guardas? Vamos Ashreti!
Os guardas abriram a porta, um entrou para recolher os pratos e colocar as mordaças e o outro ficou à porta.
- A minha Dalila não vem? - miou Black.
- Se calhar teve folga hoje, amanhã é outro dia, amigo. FKA manteve-se no canto mais próximo e rapidamente recolheu o molho de metal a balouçar do cinto, passou o mesmo a Tak, este identificou a chave certa e retirou-a, devolveu o molho ao tiefling. Um ligeiro tremor de mãos de FKA corvo, derivado sem dúvida dos excessos dos últimos dias, deita tudo a perder: ele assusta-se com a própria inabilidade, tão incomum, e deixa as chaves cair. Antes de preparar uma desculpa já está com uma espada no pescoço.
- O filha da puta do demónio estava-me a tocar no rabo e queria-me roubar as chaves!
Tak salta em auxílio do companheiro, desferindo um soco no guarda, mas este reage com outro e faz rapidamente uma chave no pescoço de FKA corvo. Black e Ditozito ficam sem reacção perante a espada desembainhada do outro guarda.
- Vocês não têm noção do que estão a fazer. Tobias, acaba de colocar essas mordaças… Este vai já para o buraco, mas de vocês tratamos de manhã - disse, olhando principalmente para Tak.
Os guardas arrastaram o tiefling para o fundo de um buraco perto da mina e fecham o alçapão. Está um breu do demónio, mas FKA corvo tem olhos de demónio e vê o suficiente: marcas de garras, sangue, ossos pelo chão... rapidamente opta pelo sono, para ver se aquela noite é curta. Os três companheiros, um piso acima, decidem fazer o mesmo, argumentando que mais vale tentar aproveitar a inesperada vantagem da chave com calma do que usá-la numa noite em que já chamaram demasiada atenção sobre si mesmos.
Passado poucas horas Tak acorda, na cela, com as vibrações usuais. Só que desta vez, no subsolo, FKA corvo também acorda. Dali dá para encontrar nas vibrações um padrão, uma repetição demasiado exacta, assustadora. Da parede em frente à porta vê cair poeira, seguindo a mesma cadência. Os tijolos parecem meio soltos, o tiefling hesita mas levanta-se para investigar. Tira cuidadosamente vários até conseguir ver algo, e só tarde demais se apercebe que as vibrações haviam cessado: diante de si, centrado num sistema de grutas a que não consegue ver o fim, está uma criatura encefálica ambulante. Após uma fracção de segundo em que se encararam, os dois passaram à acção: o predador a correr, a presa a repôr tijolos. Mete-se contra a parede a fazer força. Embora tenha a certeza que aqueles estrondos estão a acordar toda a prisão, quando percebe que a queda está iminente não resiste a usar da thaumaturgy:
- O BICHO MAU ME QUER PAPAR!
Na cela já os três amigos tinham passado à acção. Black usou o ácido para destruir a sua mordaça, Tak usou uma barra metálica do beliche e Ditozito tentou engendrar uma estratégia cuidadosa. Quando ouviram o apelo desesperado de corvo abriram a cela com a chave roubada e dispararam corredor fora.
Este entretanto abriga-se num canto, de onde observa a parede a abanar após cada impacto.
- AJUDEM-ME, GUARDAS!
Depois de Black aproveitar para procurar em duas ou três celas o seu brewing kit, o trio chega ao pátio da prisão. Mal respiraram o ar frio da noite ouviram um grito vindo do alto do muro:
-PÁRA OU DISPARO!
O vigia Wilson estava visivelmente nervoso com todos os barulhos escutados nos últimos instantes e só por isso não premira ainda o gatilho. Tak, sem perder uma batida, aproveitou a tensão para entrar na mente do guarda - “Problema na solitária. Estamos só a ajudar. Não dispares. Vem ajudar. Avisa outros guardas.” Após um esgar confuso, o guarda começou uma corrida desenfreada para ir avisar os outros, aos gritos:
- É BOA GENTE! É BOA GENTE!
No subsolo, corvo jogava ao Tom & Jerry com a abominação, esgueirando-se para o túnel e escondendo-se rapidamente atrás de estalagmites. A ironia maldosa do trinco simples do lado de fora permitiu-lhes ganhar facilmente acesso à solitária, mas antes de descerem os três prisioneiros foram confrontados pela chefe dos guardas, Dalila, de pijama.
- Que caralho se passa aqui?
- Tak não querer magoar humanoides. Tak apenas ajudar Ashreti.
Wilson grita, ao longe:
- ELES ESTÃO COMIGO! DEIXA ESSA MALTA EM PAZ!
Dalila olha para Wilson, olha para Tak.
- O Wilson não manda nada aqui.
Dalila prime o gatilho da arma, e atinge Tak diretamente no peito. O tiro fica retido na pele grossa de Tak, fazendo pouco mais do que um arranhão. Tak faz um gesto rápido com a mão e a pistola de Dalila fica vermelha. Dalila larga a pistola de imediato, com as mãos numa dor aguda.
FKA corvo sai a correr e a gritar:
- Não tenho condições para dormir naquela cela! Há um monstro a correr atrás de mim! - fugia de um cérebro do tamanho de um pequeno cão.
- Ui, foi por isto que gritaste? Que marujo me saíste...
O cérebro demoníaco muda de direção e salta para a cabeça de Black, desaparecendo. Este mantém-se parado um instante, mas logo os seus olhos ficam totalmente brancos e ele desata a correr buraco abaixo.
Tak volta-se para Dalila, que parece pronta a disparar sobre Ditozito, e faz um gesto ascendente com a mão. As muitas raízes do solo da prisão rapidamente envolvem totalmente Dalila.
- Eu vou apanh...
Tak, FKA corvo e Ditozito correm atrás de Black. Ditozito grita:
- Pelo poder de Bob, SAI DESSA MENTE, CRIATURA!
O cérebro é cuspido por Black e rapidamente cortado por Ditozito.
- Era preciso isto tudo, party-boy? Preferia ter saído da cela só para tratar do meu brewing kit… Acabei a ser possuído: obrigado!
- Black, a tua ironia é não só justificada como muito apreciada, mas acho que podemos guardá-la para amanhã e agora voltar para o pátio, explicar o que se passou, levar o corvo para a cela e organizar a fuga para outro dia - retorquiu Ditozito, mas antes de os outros conseguirem sequer contestar a estupidez ouviram as ameaças sanguinárias dirigidas ao quarteto pelos vários guardas que se estavam a juntar na solitária, preparando-se para a caça.
- Tak escapar hoje.
Na gruta o caminho faz-se devagar e cuidadosamente. FKA corvo e Black conseguem ver decentemente nas sombras para perceber por onde se movem, mas o percurso está recheado de bifurcações e obstáculos. Seguindo brisas e outras pistas ambientais passam por rios subterrâneos e andaimes precários e carris ferrugentos de um sistema de minas abandonado. Quando já pensam estar longe suficientemente dos guardas, Tak conjura uma chama para melhorar a visibilidade. Eventualmente, ah grande fortuna!, deparam-se com um baú: deixando a curiosidade levar a melhor, e não ligando ao cadáver com um buraco na nuca e a cabeça oca nas proximidades, abrem-no e descobrem-no recheado de armas e armaduras. FKA corvo começa a distribuir o conteúdo do cofre pelos heróis.
- Tak, estas adagas mudam de cor!
- Ashreti, estas láminas ser muito Ashretis. Este metal ser metal sagrado, adagas mais fortes quando usadas na escuridão.
- Boa Tak, andas a druidar forte! E vêm mesmo a calhar!
- E a minha espada, Tak, consegues detetar alguma coisa?
Tak olha para a espada, ele conhecia aquele material de algum lado, mas não se consegue lembrar de onde.
- Isso ser espada de Luz. Espada de Luz talvez curar se acertar com espada no seu pescoço, talvez não.
- Ok Tak, depois experimento.
- E a minha besta?
- Besta ser besta.
Ao fim de horas de caminhada, uma brisa mais forte dá-lhes esperanças. Ditozito, sempre paladino, avança sem medo. Percebe que a brisa vem de um poço, sem fim à vista. Bem de lá de baixo vê uns pontos de luz cintilantes. Ao fim de uns segundos percebe que estão a aumentar, a mover-se, a vir na sua direcção. Mais uns segundos passam quando Ditozito declara, satisfeito, aos seus companheiros:
- São uma espécie de balões! Uns quatro! Muito fofos :D
Mal diz isto percebe que a forma mais atrasada é na realidade muito maior que as outras três, e não tanto um balão como uma aberração enorme com oito tentáculos e um olho enorme no centro.
- Errrrr… VAMOS PESSOAL!
Os quatro companheiros começam a recuar mas percebem imediatamente que a velocidade das criaturas não lhes vai permitir escapar. Decidem tentar uma abordagem linguística, dando uso às várias línguas em que sabem comunicar.
- Criatura não-viva, que língua falar?
Os fugitivos tentam druidic, draconic, fey, beast, infernal, common, mas a criatura não responde em nenhum dos idiomas. Optam por uma retirada calma, mas mal Black vira costas leva uma vergastada valente que o deixa a ver estrelas. FKA corvo desloca-se rapidamente para uma lateral estratégica e Tak, olhos repentinamente cinzentos, gesticula em círculos e faz surgir uma nuvem por cima das aberrações. Quatro descargas eléctricas distribuem-se irmãmente e três nuvens fazem *PUFF*! O maior ser perde alguns tentáculos mas não recua.
- TAK É DRUIDA! TAK É DRUIDA!
Black deixa o seu instinto festivaleiro tomar a melhor de si, optando por entoar cânticos antes de atacar, mas a sua inclinação de bardo tem um efeito positivo, encorajando FKA a enterrar umas navalhadas certeiras. FKA toma então as rédeas ao cântico, libertando Black para este usar a sua nova besta. A criatura tem cada vez menos tentáculos e flutua cada vez mais próximo do solo. Tak ainda sente um ataque mental mas consegue reagir, com mais uma rajada que despedaça os últimos tentáculos. Ditozito, na sua melhor pose de elfo, usa a espada de luz para desferir o golpe fatal.
- “This forest is old. Very old. Full of memory… and anger!” - gemeu Ditozito. Os companheiros já estavam habituados à birutice.
Sentaram-se para recuperar forças, aproveitando para cortar vísceras, procurando algo de útil.
- Não sei do brewing kit… - reclamou Black - aposto que já o passámos… Não há por aí nenhuma picareta para escavarmos para cima e irmos parar dentro do armário?
- Estava uma picareta no cofre. Ficou lá isso, um daqueles capacetes com luz para as minas, um diamante, umas moedas de ouro, uns pensos… - respondeu FKA corvo.
- … tu deixaste um diamante para trás? Segundo a última actualização do mercado aquilo vale 600 moedas de ouro!
- Property is theft! E não gosto de items sem valor prático!
Antes de Tak e corvo conseguiram iniciar um rant sobre a inutilidade do vil metal e a injustiça inerente de um sistema de trocas indirectas baseado num modelo capitalista já Black se encontrava a balouçar no seu cavalo, na direcção de onde tinham vindo, de tocha em punho. Passadas duas horas, quando os companheiros já se tinham resignado à sua partida precoce do plano terrestre e tentavam arranjar um nome sonante para o seu trio, o dragonborn regressa:
- Mekie, pessoal! Estamos ricos! Já não me interessa o brewing kit! Podemos comprar toda a bebida que quisermos! Quando sairmos daqui vamos organizar a festa do século, rebentar com Yuma para fora do mapa! UH UH UH! TAK É DRUIDA OU NÃO?!?!
Avançaram mais um pouco e avistaram uma cascata. Perto havia um buraco com uma luz brilhante que provocava um pequeno arco-irís. Debaixo do mesmo, inacreditavelmente, encontraram outro baú, a vomitar pedras preciosas pelas costuras. Black encheu os bolsos e convenceu os companheiros a fazerem o mesmo e dirigiram-se finalmente para a abertura. Subiram, subiram, e finalmente saíram. Estavam na orla de um deserto. Nas suas costas um rio e atrás do mesmo a prisão de Yuma, de onde agora lhes chegava uma cacofonia de gritos medonhos. Não interessava, tinham escapado.
