Pepe Larigot estava triste porque viu a (sua) guitarra partida. Algo estava errado, (mas) já deu certo.
Larigot lamentava (agora) a perda da fome.
- As batatas sujavam tudo! (Mas) era incrível o sabor da batata camponesa... Que...
(Nisto), comparece à hora marcada pelo maior escritor, António Mega Zé, o Zeca da Über.
- Agora trabalho!
- Para quê tanta força a abrir um sumo? Calma!
- É preciso fazer força.
- Mas com jeitinho!...
- De andorinha a voltar?
- Nao, (com jeitinho de andorinha livre) a levantar voo na Primevera.
- Está na altura de pintar a parede?
(interpretação superficial da obra complexa)
Pepe Larigot representa um homem em forte conflito interno. No final das suas ações, tem satisfação momentânea que rapidamente desaparece para dar lugar à tristeza e nostalgia. Pepe pode também representar um anti-utilitário: o que interessa não são os fins, que são sempre insatisfatórios, mas sim os meios. É um personagem com aparentes contradições lógicas: (a) parte a guitarra porque o estado completo da guitarra era "errado", ficando "certo" depois de fragmentado - talvez como o próprio Pepe - (b) lamenta "já não estar com fome", sendo que normalmente o estado "estar com fome" é o não-desejado pelo Homem comum e (c) apesar das batatas o sujarem todo, há algo no sabor da batata que...
O encontro que parece furtuito entre Pepe Larigot, o homem introspectivo, com Zeca Zé, o homem quotidiano, é, na verdade causado por um "grande escritor". Nunca são revelado os verdadeiros motivos de António Mega (talvez um alias para algum escritor real, ou talvez uma metáfora que não necessite de mais precisão), pelo que ele permanece um personagem misterioso nesta obra. De notar que o seu nome "Mega" reforça a ideia de ele ser "grande". Este jogo de nomes está também presente no nome de "Zeca Zé", que, em oposição a "António Mega" (os nomes aparecem de seguida no texto) reforça a sua pequenez. No entanto, é Zeca Zé que "trabalha" na Über. Pode haver aqui duas alusões possíveis: (a) Zeca Zé é um "escravo" dos Grandes Homens ou (b) o próprio Zeca Zé é o über-mensch. Dada a continuação da obra, apostamos mais na opção (b), apesar de ser inconclusivo o nosso breve estudo.
Zeca Zé inicia o diálogo com Pepe Larigot anunciado que "agora trabalha!", o que denota que Pepe e Zeca já se conheceriam e que Zeca, talvez ao contrário de Pepe, está a conseguir alinhavar a sua vida.
A referência a um "sumo" é talvez o ponto mais alegórico desta pequena magnum opus dos autores. Pepe, um homem sensível, está chocado com a brutidão como Zeca Zé leva a sua vida. Pepe tenta apelar à suavidade, fazendo uma comparação com andorinhas, um bicho muito sensível e fofo. Também é feito um novo contraste entre Zeca Zé e Pepe Larigot: Zeca Zé comove-se com a "chegada", enquanto que Pepe Larigot prefere a "partida".
Por fim, Zeca Zé dá mais uma vez um exemplo do seu sentido bruto e prático: "chegou a Primavera? Está na hora de pintar ali a parede oh Pepe!"
Outra interpretação possível do final: Primavera significa renascer, coisa que Zeca Zé já conseguiu (arranjando um trabalho) mas que Pepe Larigot ainda não. Zeca Zé pode estar a tentar puxar o seu amigo, para potenciar o seu renascimento.
(original)
Pepe Larigot estava triste porque viu / a guitarra partida. Algo estava errado / já deu certo. Larigot lamentava a perda / da fome. As batatas sujavam tudo, era / incrível o sabor da batata camponesa / que comparece à hora marcada / pelo maior escritor António Mega Zé, / o Zeca, da Über. - Agora trabalho para / quê tanta força a abrir um sumo? Calma! / É preciso fazer força, mas com jeitinho / de andorinha, a voltar livremente na Primevera, / está na altura de pintar a parede.
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Como no post anterior, temos aqui outro exemplo de Le cadavre exquis boira le vin nouveau: o original no final (a troca de autor marcada com o uso de "/") e uma adaptação ao início. Para ajudar à compreensão dos leitores, entre os dois blocos de texto temos uma interpretação pela pena de doom (da minha parte, sinto que o nosso Zeca Zé marcou aquele encontro através do que não será mais que o seu heterónimo literário, António Mega Zé, pretendendo assim surpreender Pepe Larigot com o duplo choque: não só trabalha, como é o maior escritor; sinto aqui uma sequela espiritual a Withnail and I, em que Marwood volta para, como diz doom, potenciar o renascimento de Withnail).
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