23 February 2019

A ambrósia mal-amada

Vénus esperava Marte, de rolo de massa na mão, mas não havia meio de ele chegar.

*
- Não vás embora!
- Tenho Vénus de rolo de massa na mão à minha espera e esta música é bad omen, é melhor ir.

*
Vénus deitou-se.

*
Marte chegou a tempo de ouvir o eco perguntar:
- Marte? És tu? Volta para...
Marte não voltou. Comi e caguei, tou satisfeito.
[Pausaram para uma jam com os Animal Collective]
- A tua mulher tem saudades for reverent greeeeeeen...
twigs tão intenso que tenho de comer uma batata-frita
- Calma Marte, vê lá se não
#momento de composição de "olá - uma saudação das mais usadas"#

*
Marte chegou a tempo de ouvir o eco perguntar:
- Marte (arte-arte)? És tu (uu-uu)? Volta para... a cama, vá (áá-áá).
Marte voltou. O dia tinha sido intenso, Zeus pediu-lhe para ajudar com o IRS, agora tinha de ser tudo na net. Crónica talvez indigna de uma mitologia nórdica, mas no Olympos trabalhamos com o que temos...
Deitou-se, e enfiou os pés gelados nas costas da Vénus.
- DESGRAÇADO! POR MARTE! ARRE!
Acontecia todas as noites!
- Desculpa, eh eh! Dá cá beijoca ao campeão!
Vénus atirou-lhe o rolo da massa à tola e virou costas.
Marte enfiou-lhe os pés outra vez.
- Agora já estão bem, amor =D! - beijocou Vénus.
Passados três banquetes e um tapete, Marte lembrou-se:
- Traí-te com Eurídice, a guitarra alada. Dessa união nasceu um pudim.
- Deixa-te de fantasias e possui-me!
- Pxee! Este pudim pode levar-nos ao trono! Que opinas tu?
- Tou 100 paciência para que não faças o Amor comigo, a poderosa e formosa Vénus!
- Não t'entendo, faz o que queres mulher, com a almofada! Eu cá vou-me levantar e fazer-me ao dia.
Hades esperou, e saiu do armário.
- Quase nos apanhou! Meu anjo, estou aqui escondido há sete séculos, tenho de ir ao kebab comprar uma chamuça.
- Outro! Nem marido nem amante me dão! Vou usar a mão!
- Err... ok, bora lá! - disse a mão.

*
Marte subia o Olimpo descalço. Via ao longe Zeus, imponente.

*
- Olha quem ali vem!

*
- A chama arde sem fogo.

*
- É o Marte?
- Sim, vem nu! - disse uma gaivota desnorteada.
- Ah, parecia a Morte!
- Não, é o Marte!

*
Assim se passava um dia bem passado na Grécia. Mas, às vezes, também surgiam intrigas!

*
Orfeu saía do Inferno, de mão dada com São Vicente.
- Abandonou a Eurídice?
- Não, essa estava com o Marte há bocado! Nós vimos para o bingo - disseram um conjunto de deuses inconsequentes.
- "Vimos" ou "viemos"? - tossiu Hades.
- Hades, cheiras à minha dama!
- São chamuças, por quem sois!
- Como saberei agora? Se é chamuça ou perfume da Dona Vénus, minha mulher?
Uma situação bicuda. Só um a poderia resolver: Pepe Larigot.
- Alguém o vá buscar aos mortais!
De imediato surgiu o Über de Zeca Zé. Uma porta abriu-se e um corpo desmanchou-se.
- Deixo-vos aqui esta encomenda, está bezano mas disse que fazia aqui falta. São duas cascas de banana.

*
Apresentavam-se ao tribunal: Hades, Vénus, Marte e Pepe Larigot.
- CULPADO! - gritou Osiris.
- Calma, aqui é a Grécia! Inocente até prova do contrário. Oh Osiris, tu vens aqui e achas que mandas? - inquiriu Zé, ou Zeus. Osiris foi expulso do monte.
- Já conhecemos a acusação, as provas e os contra-argumentos. Para resolver o conflito, sugiro que Vénus decida.
- Decidir o quê?
- Este pudim, é ambrósia ou quê?!
- Vou provar.
Pegou no pudim, filho de Marte, e cheirou:
- Sabe a feedback elétrico.

*
Outro dia, Vénus duchava-se.

*
Anotha day, anotha dollah, lembrou-se Marte a meio de uma caçada ao javali. Ia com o pequeno pudim ao colo.
- Vês, petiz, é assim que se faz a mamã feliz, caçando para ela. Amo-a muito, a minha pequena Vénus.
O pudim, que já contava com 37 anos e algum bolor, não falava à mãe desde que saíra do molde. Encheu o peito de coragem, virou-se para o papá e cantou:
- Pai, eu sei que sou adotado.
- Não usei adubos nem especiarias, concebi-te, eu mesmo, Marte, Deus da Guerra!
- Mas a mamã... quem é?
- Ah! É a tia Eurídice, já falecida. Desculpa filho, é difícil. A mamã Vénus forneceu o rolo de cozinha.
- Papá, ela sempre me comeu a torcer o nariz. Nunca me amou como sobremesa excepcional que sou, muito menos como filho.
- Oh filho, tu não és fácil de amar. És um gosto adquirido.
Com toda esta conversa já estavam a chegar. Vénus tinha a mesa para dois só.
- Veio o pudim... - lamentou.
Entraram. A tensão estava no ar, grossa como...
- Como eu! - interrompe Marte.
Sentaram-se. Velas decoravam a sala, incenso ardia, uma orquestra entrou.
- Marte, tenho muito que te contar. Encomendei um armário novo e o divórcio. Estou farta que tragas cá esse pudim! Preciso de experimentar outros sabores! Sou uma jovem ainda!
- Mas ele é teu filho! Vénus, o erro é nosso! Não me culpes pela fraca concepção.
- Usaste o rolo da Eurídice, isso sei eu..
- Vénus, come for me, oh
               come for me, Venus
               come for me, oh
               come for me!   
A orquestra tentava ajudar a salvar aquele casamento divino. O pudim interveio:
- Papás, se é assim, eu próprio me como hoje. Mas preciso de três coisas: uma colher, canela, e um beijinho de despedida.
De lágrimas nos olhos mas a abanar o capacete (escutava Knife no walkman) deu a primeira colherada.

*
Hades massajava Zeus quando este sentiu uma presença.
- Zeus, isto aqui é uma balburdia! - resmungou Osiris - Venho com o Anubis para tomar conta.

*
- A partir de hoje - gritava Osiris, no topo do Olimpo - isto vai ser diferente, coiso e tal. Um dente por um olho, é a nova lei.

*
- Ouviste? Agora Osiris manda e tal - comentou Marte à mulher, durante o almoço. Falava com uma vassoura, de peruca e vestido. Vénus tinha-o deixado há 63 luas, levando consigo o rolo.

*
- Pepe Larigot perguntou à Morte:
- Quanto falta?
- Apenas a noite.......
- Boa-noite então.

1 comment:

  1. Este intenso épico mitológico levou por momentos a melhor da parelha que aqui assina, que confrontada com a escala da sua proposta se deixou (des-)encaminhar para alguns instantes de desvario criativo, no qual o mito jurídico-matrimonial avançou a custo (as tentativas, depois abortadas, estão aqui destacadas através de um text-align: right), visto as energias inventivas simbióticas terem sido dirigidas para diversos outros projectos espontâneos, para além de uma apreciação geral do mundo. Para mais informações consultar o post seguinte, "olá - uma saudação das mais usadas".

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