Na taverna, à noite
"Já ouviram a célebre e lendária fuga de um bando de outcasts, que não tinham onde cair mortos, da Prisão Territorial de Yuma?" - pergunta Raimundo a uma criança e a um gnomo de porcelana, sentados ao balcão do saloon da Cidade. "Um pistoleiro dracónico com tendência para o uísque, um diabito com problemas de identidade, um guardião da justiça de Bob Marley e um crocodilo mágico. Lembram-se dos tempos em que a Prisão Territorial de Yuma era descrita como inescapável? Pois bem, meus amigos, estes quatro encontraram-se pelo acaso e, graças à força e ao seu engenho, quebraram as defesas da intolerável cadeia."
"Mas Raimundo, tu não estavas lá anteontem?" - inquiriu o taberneiro.
"Senhor Joquinha, deixa-o contar a história" - implorou a criancinha, com o gnomo ao colo.
"Então e quando se passou isto, Raimundo velhote?" - perguntou-lhe o taberneiro, sarcasticamente, mas fazendo a vontade à criança.
"Foi ontem à noite."
Raimundo sorri e levanta o copo de bagaço para dar mais um gole. Mas, quando volta a baixar os olhos, já não vê ninguém sentado consigo. Pela porta do saloon, está a sair uma criatura peluda que deixa pegadas de cabra e às costas leva um saco com duas figuras diminutas lá dentro.
No deserto, de manhã
Com a prisão pelas costas, os nossos heróis caminhavam já há várias horas.
"Parece que já estamos a penar nesta areia há um ano! Alguém orienta um bar?" - lamuria Black, sem ponta de álcool no sangue verde.
"Está aqui uma mercearia" - anuncia o senhor merceeiro "Jaime, chamo-me Jaime".
"Ah, pois está!" - e Black entra na mercearia com o Ditozito, ofegantes. Passados minutos, Black volta cambaleante e com um saco a tilintar devido ao choque de garrafas de bebida. Ditozito vem com fumo a sair pelas orelhas e a sacudir restos de ervas das mãos - "Jah Bless! Esta é da sagrada! Matenham a jangada na rota, que eu já rezei ao Bob, e só volto p'ra celebração de Haile Selassie, o primeiro. Fui!". Dito isto, Ditozito fica catatónico. Tak e FKA corvo amarram Ditozito ao cavalo-de-pau de Black e recomeçam a caminhada.
"Estou a sentir um formigueiro!" - grita FKA corvo.
Os quatro, no meio de quilómetros de areia, e sem ninguém para assistir ao peculiar espectáculo, começam a ter ligeiros espamos, enquanto pedras preciosas várias lhes caem dos bolsos. "Que se passou-se?" inquire Black, todo narso, a baixar-se para tentar recuperar a guita.
"Maior nós-mundo! Força grande. Olho alargar, ver mais. Bom" - tenta informar Tak, ainda a tremer.
"Acho que subimos de nível" - traduz FKA.
Passados dois dias avistam uma pequena aldeia.
"Olha ali! FKA, estás a ver algum bar? É hoje que organizamos a festa!" - diz Black, enquanto mama a última garrafa de bebida de um só trago. Atira o recipiente para trás das costas. Tak, com um ligeiro suspiro, vai apanhar a garrafa e arruma-a num saco bio-degradável, já quase cheio. Junta-se aos companheiros, a tilintar.
FKA semicerra os olhos para ver melhor, mas vê tudo fusco. "Está muito sol, doi-me a tola, tenho a minha perception toda lixada, rolei baixo. Vês algo, Tak?"
Tak olha em volta e vê um águia a rondar - "Tak entrar". A jovem águia sente-se como quando viu o filme Being John Malkovich e, sem ter controlo do seu próprio voo, vira-se para a aldeia, curiosa. Não vê vivalma, mas, com o seu olhar perfeito, detecta o brilho amarelo do vil metal e o negrume ardente de armas de fogo. Também avista, para seu alívio, um contentor de reciclagem verde.
Quando chegam à aldeia, Black recolhe o ouro, armas e munições e Tak livra-se do seu fardo ecológico. Mas Black, apesar do tesouro inesperado, começa a ficar impaciente.
"Aqui não vai dar. Eu já não tenho pinga - só no sangue, eheh - e não há party boys aqui. Siga viagem." - diz Black, enquanto cambaleia deserto adentro, arrastando Ditozito pela areia.
Já com bolhas nas patas e pés, e com pouca ração, os nosso campeões chegam a uma cidade.
"Pst pst! Venham aqui, venham, venham!" - pisca-lhes o olho uma jovem, dentro de uma carruagem de comboio.
"Que casa ser aquela?" - pergunta Tak a FKA corvo.
"Tak, tu tem calma. Aquilo não é uma casa. Fecha os olhos Tak. Agora, dá três passos em frente. Abre os olhos. Viste? Estás mais à frente. Uma carruagem faz o mesmo, mas mais depressa."
Tak aceita o convite da rapariga, sobe para a carruagem, fecha os olhos e espera.
"És maior?” - pergunta a desconhecida, toda lambona.
"Tak já falar com Nila" - retorque Tak, de olhos fechados.
"Não me chamo Nila, oh lagartixa!"
FKA consulta o seu dossier de Lizardspeak e conclui - "Nila quer dizer 'jovem simpática, porém desconhecida e potencialmente não confiável, que se encontrou numa cidade do deserto'. Se fosse numa ilha, por exemplo, já era Nica. Ah, com k. Curiosa a linguagem do nosso camarada"
"Olha-me este!" e vai-se embora.
No fim deste diálogo, Tak abre os olhos.
"Estranho. Tak quieto. Ashreti mentir a Tak?"
"Tak, para o que te deu hoje. Tens de esperar muito mais que isso para resultar. Vamos ver as redondezas."
Ao circundarem o comboio, vêem que ele está a ser vigiado por um guarda velho.
"Deve haver ali tinto do bom. Precisamos disso para organizar a festa ali no bar" e aponta "Corvito, eu vou ali conversar com o guarda e tu, que és do sneak, tenta micar umas brews."
Black aproxima-se do senhor guarda, ainda com Ditozito pelas costas.
"O seu bigode está incrível, faz-me lembrar o meu avô, que cuidava muito bem do seu bigode!" - o guarda mantém a postura, sem responder. Black insiste - "O que faz para cuidadar de tal bigodaça?"
"Amigo, saía daqui" - e dá-lhe uma bengalada, como se tivesse apanhado o Dâmaso a subir o Chiado.
Enquanto isso, FKA e Tak inspecionam umas caixas que encontraram no comboio. Black vê uma patrulha de guardas a aproximar-se da carruagem onde os seus amigos, ignorantes do potencial perigo, haviam entrado.
Black, em sobressalto, vai ter com os guardar e aborda um deles.
"Oh amigo! Então, o seu amigo está ali todo janota, e você apresenta o farto bigode nesse estado? Migalhas, ...., uh, ... nódoas ..." e arrota.
O guarda injuriado agride o draco-humano com o seu cacetete.
"Oh homem, deixe-se estar, eu vou-me embora." - diz Black, caído no chão. Depois vira a cara para onde os seus amigos estão e grita - "FUJAM DAÍ, ESTÁ AQUI A GUARDA."
"Vamos sair pela janela!" - grita FKA de dentro do comboio.
"Eu também?" - questiona Black, confuso.
"Não, tu já aí estás fora".
Tak e FKA saltam pelas traseiras, FKA corre para longe e Tak esconde-se debaixo do comboio mas deixa o seu pau de fora. O mesmo, útil como de costume, indica que a profundidade estava próxima de zero. Os guardas, avistam o pau e gritam em uníssono afinadíssimo - "Ladrão! Ladrão!"
"Ir embora" - diz Tak e afasta-se pelo outro lado.
Black, depois de pensar, volta a aproximar-se da patrulha, e diz - "Calma, não são estes os meus amigos ... uh ... nós andamos a traficar ... mel ... e estamos na primeira carruagem ... nesta está o Tak ... que não conheço... ya, é isso"
FKA, notando que os guardas não pareciam convencidos, apesar do discurso estatal do brilhante estratega Black, usa a sua fiel thautarturgy para criar vozes a vir da primeira carruagem.
"ESTAMOS AQUI, CHEIOS DE MEL TRAFICADO E AQUELES GUARDAS NEM SABEM, QUE CASTORES."
Os guardas, olham uns para os outros primeiro, coçando os seus bigodes, e depois para a primeira carruagem, mas não parecem totalmente convencidos.
FKA tenta de novo - "VEM AÍ O NOSSO AMIGO FKA CORVO, O TAK NÃO VEM, ELE NÃO GOSTA DE MEL. E O BLACK? ELE TAMBÉM NÃO, ELE QUER SAIR DO GANG. ELE SÓ VIA, NUNCA CONSUMIU" - FKA, que até ao momento, não tinha sido avistado pelos guardas, passa à frente deles a correr em direção à primeira carruagem. Os guardas seguem atrás dele, enquanto Tak, Black e Ditozito (por vontade de outrem) se escondem na oficina da estação.
FKA, a pensar no que acabou de dizer, apercebe-se que, na verdade, se deveria esconder e atira-se para dentro da bilheteira. Os guardas chegam à primeira carruagem e são recebidas por umas velhas tias de vestido de gala a beber chá. Decidem prendê-las, para não parecer mal.
Os nossos heróis reunem-se de novo e, cuidadosamente, partem em direção à locomotiva. Ao passarem ao lado da primeira carruagem, vêem um duelo épico entre sombrinhas e cacetetes.
Sobem para a locomotiva. Ao entrarem, vêem um monte de pêlo num canto, a ressonar. Não ligam, tinham assuntos mais prementes a tratar. Como, por exemplo, arrancar dali para fora. Mas, infelizmente, nenhum deles sabia operar tal maquinaria. Tak, tenta ajudar Black a perceber os mecanismos usando a sua habilidade para guiar a aprendizagem de outros seres, mesmo quando estes estão podres de bebedos. Sucesso!
"Uiiii! Basta meter carvão e puxar a alavanca" - diz Black enquanto manipula vários botões e manivelas. Os outros batem palmas discretamente e cantam o seu hino, baixinho - "O TAK É DRUIDA!!"
Tak, inchado, manda uma escarreta flamejante do nariz para o carvão. O comboio inicia a marcha, lentamente.
Tak leva um tiro. Os guardas e as velhas, percebendo a patranha genial, haviam decidido chacinar quem não merece ser chacinado. Triste sorte, a dos nossos campeões, que pareciam ter a vida encaminhada. Mas nada tema, fiel leitor, a sorte protege os audazes.
Tak, tendo uma epiderme muito resistente, apenas precisa de expandir o peito para expulsar o projétil. Aproveita o mesmo movimento anatómico para expelir uma escarreta flamejante que havia guardado na outra narina, para situações inesperadas. A chama chamusca todos os bigodes da formosa patrulha, para jubilo das velhas, que preferem uma cara limpinha. O festejo das amigas do chá é de curta duração pois Black, ainda no ponto, usa o seu drunk style, com piruetas e tudo, para dançar com elas para fora do comboio. Black entusiasma-se e continua o baile no topo da locomotiva.
"Não te esqueças do que foste aí fazer! Já te livraste deles, agora anda conduzir isto" - relembra-o FKA, preocupado de que aparecessem outros obstáculos.
"Agora 'tou a curtir" - riposta Black.
"Onde é que nós estamos?" - pergunta Ditozito, a rodopiar pelos ares, agarrado a Black, mas já recomposto da sessão espiritual.
O comboio a andar e as horas a passar. Black, que entretanto ensinou FKA a conduzir, aventurou-se a investigar os outros vagões. Num deles, encontra dois revolveres e um frasco com um líquido transparente, com o seguinte rótulo: "Água benta do tio Bento, abençoa burro e o seu jumento". Black, intrigado, guarda o frasco para pedir a Tak que lhe abençoe os revolveres. Já de saída, pensa ver FKA embrulhado num pano no fundo da sala, e, enervado, disfere-lhe um pontapé no nariz.
"Ai! Ia fodendo a pata. Cum caraças, corvo, tens a testa dura" - choraminga o humano-dragonesco, com o orgulho ferido. 'FKA' não responde, pois era uma estátua de tiefling - "Ah, és tu afinal."
Black, de volta à locomotiva, informa os companheiros do que viu. FKA atira o manual de condução da locomotiva a Ditozito e abala. Ao chegar à carruagem, depara-se com uma beleza helénica como não via desde a Penélope.
"Meu amor, vou-te pintar o mármore, estás pálida" - grunhe FKA. O apaixonado diabito atira-se a ela, com demasiado entusiasmo, e caem do comboio.
"Que passou-se?" - pergunta Black ao ouvir o estrondo.
"Oh my Bobzito! O diabozito caiu do comboiozito! Anda aqui parar isto, Blackzito!" - explica Ditozito, aflitozito.
Mas Black estava demasiado sóbrio para se lembrar de como conduzir maquinaria daquela complexidade: "Eu fico na buzina :)"
Tak, despois de abençoar os revolveres - prioridades acima de tudo - fecha os olhos - "Tak saber caminho" - e nisto atira um balde de água para as chamas.
"Tak? Acabaste de lixar o comboio, isso agora só pega de empurrão" - explica-lhe um dos revolveres abençoados.
Passados alguns minutos, FKA sobe à locomotiva com uma expressão imperscrutável.
"Então a estátua?" - pergunta-lhe Black.
"A estátua já foi, está no caraças, esquece a estátua."
Ditozito desprende a locomotiva das restantes carruagens, e mete-se a empurrar - "Diabito, dá-lhe gás!"
FKA puxa a chave na ignição, prego a fundo, e o comboio arranca. O tiefling mantém-se ao leme enquanto os outros três, fatigados, se enroscam e adormecem ao ritmo suave da marcha lenta do comboio.
Já de madrugada, Tak acorda com um cheiro nauseabundo, que lhe dava saudades de casa. Ao abrir os olhos, vê um monstro peludo a enfiar Ditozito num saco e, ainda com sonito, alerta o condutor.
"Olá amigo! Pelo seu aspecto, diria que é um ser Infernal como eu! O que quer do nosso companheiro, o missionário de Marley?" - inquire FKA, animado por ver um primaço.
O monstro ri-se e salta borda fora com o saque astral, enfiando-se na floresta negra.
Surpreendidos pela situação carnavalesca, os nossos benfeitores demoram a reagir, mas lá páram a sua caravela metálica. Embrenham pelas árvores macabras e dão com uma parede rochosa. Ao olharem por uma fresta da dita parede, vêem um iglu no meio de um descampado. Apesar do céu estar limpo, neve caía com abundância, quase escondendo por completo os esqueletos tombados que decoravam a paisagem.
Krampus, acabado de chegar a casa, pousa as chaves no cinzeiro e o saco no sofá - "Que dia!". Depois de preparar a banheira com óleos essenciais, pega na gilete e começa a depilação. Saído do banho, liga a TV mas vê que a novela ainda não começou. Então, triste, inspeciona o que recolheu. Saca uma vaca, um pudim, o Penedo, uma criança com um gnomo ao colo, e duas chouriças de aves. Ah, e o Ditozito! Pobre destino o do nobre paladino: de futuro funcionário da oficina da Prisão Territorial de Yuma passou a merenda.
Lá fora, os três compinchas, de patas geladas, foram-se aproximando, cautelosamente, do iglu. FKA, o mais sneaky-sneaky, entra pela porta das traseiras mas escorrega num sabonete que voa até se espetar no corno esquerdo do Krampus. O anfitrião, furioso, atira correntes aos costados de FKA, que fica imobilizado - "ACUDAM!"
Tak, ao ouvir o pedido de socorro, entra na cabeça de um urso polar engravatado que estava de passagem, e força-o a ajudá-los a derrotar o malvado e bem-cheiroso Krampus. O urso e Black invadem a HQ de Krampus e, depois de alguma porrada, o mamífero consegue distraí-lo por tempo suficiente para Black puxar uma escarreta gloriosa de ácido do fundo da gargante e, cá vai disto, atira-o ao rabo do Krampus.
"Já mandei o ácido" - diz Black, satisfeitíssimo.
Krampus tinha deixado a frigideira ao lume e, derretido o óleo, começa um incêndio portentoso. Black pega em FKA e olha para Ditozito com cara de - "Salvas a criança?". Este não entende mas, confuso, anui e sai porta fora.
Tak, sentindo más vibrações universais, entra de novo na casa e salva a criança e o gnome, o último já em papa. Quando sai do que sobra do iglu, dá uma cabeçada em Ditozito. Liberta o urso e ajeita-lhe o nó windsor - "Tak amigo de urso. Urso amigo de Tak." - mas o urso dá-lhe uma chapada e vai embora; tinham-lhe arruinado a noite de dungeons and dragons.
Ditozito, lembrado-se das aulas de Introdução à Paladinagem, recorda-se de que devia proteger os fracos e oprimidos. O que ele (não) havia feito dava direito a açoitadas no lombo. Para se redimir, embrenha fogo adentro, em busca de algo para salvar. Encontra as chouriças, já assadas, e pensa "Desperdício é pecado". Mete-as no bolso e, quando levanta os olhos, vê uma bandeira do seu deus, Bob Marley. Sai, triunfante, empunhando-a - "Jah bless! Vamos encher o bandulho!"
Para festejar o seu sucesso, fazem uma jantarada ali mesmo. Ditozito, Black e FKA partilham as chouriças mas Tak, a conselho do seu cardiologista, abandonara as carnes vermelhas e dá uma dentada na chiça abdominal de Krampus. Dá asneira e vomita. Decide tirar apenas os cornos e os olhos, pois poderiam ser úteis em receitas druidescas.
"Mau cheiro, corno" - comenta Tak, enquanto arruma o corno higienizado. Os companheiros da boa esperança ainda saem de lá com um bag of holding, um staff das woodlands, uma leather armor que nunca se suja e um baralho de cartas.
"Vai uma suecada?" - pergunta Black, apresentando o baralho aos companheiros. Tak estica a pata e tira a primeira carta.
Azar dos azares, não era um baralho normal. Antes, um deck of many things. E calhou cóco.
"Doutor Tak de Vux, desafio-o para um duelo!" - diz o esqueleto, de espada na mão.
E assim, caros legentes, deixamos os nossos amigos numa bela alhada.


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