`Que estranha situação' pensaram todos os habitantes da floresta onde a Mãe-Ursa pariu tão singela criatura. Batizaram-no Arnaldo e colocaram uma melancia sobre o seu pescoço.
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Chegou à adolescência feito um rapagão, muito aventureiro, inteligente e temerário, desejado pelas outras ursas-melancia graças às perucas bem janotas que usava, detentor do recorde de subida a penedos enquanto cuspia pevides.
No entanto isto não lhe chegava. Sentia que o Mundo precisava dele. Foi assim que aos 16 anos partiu à exploração e abandonou o conforto da sua gruta.
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Seguiu para Oeste porque pensava que assim encontraria menos aranhas - ouvia lendas das Aranhas do Este, comedoras de melancias, contadas por grilos da Floresta Encantada. Levou duas sanduíches e um saco de batatas assadas e fez-se à impiedosa jornada. Saltitou ao pé-coxinho durante a primeira meia-hora e andou a trote quando avistou dois gambuzinos com ar maroto, como quem vai acasalar e produzir criancinhas se não forem impedidos. Como não gostava de ver poucas-vergonhas bateu palmas e gritou: `Cuidado com as DST!'.
Os gambuzinos pararam de ser malcriados e apresentaram-se:
`Sou a Ivete Semgalo, desculpa o cheiro a repolho. Queres comer connosco?'.
Arnaldo não possuia sistema digestivo com capacidade para digerir verduras e, portanto, declinou a oferta. Papou ambos os gambuzinos nas sanduiches e arrotou, com classe, o macho. Inspeccionando os pertences verificou que se tratavam de gambuzinos reais, feitos de repolho. O único reino de gambuzinos ficava próximo, na lua de Vénus. Por ser tão fácil saltar até chegar à tal lua, Arnaldo recusou-se a realizar tal tarefa e partiu imediatamente.
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Continuou dois metros para Oeste e começou a sentir-se diabético. Parou para merendar.
`Nada de açucares!' gritou a um passarinho que lhe trazia uma carta. Era um pão-de-ló espalmado.
`E um cházinho?' bufou o nosso herói.
`Pede à vaca Mimosa' retorquiu o passarinho, expelindo fezes audazmente. A bovina, que por ali se encontrava, começou a esguichar leite. Entretanto o passarinho apresentou-se:
`Sou o Diogo Amado' disse Poupas, disfarçado de pintassilgo. `Queres chouriças?' e atirou-lhe duas.
`Sabem a triângulo-de-sinalização mergulhado em rechaça de abelhas... Quero mais!' o urso apreciava metal enriquecido com algo próximo do mel.
`Querem juntar-se a um grupo de expedição à lua de Vénus?' perguntou o Poupas, ainda um mestre do disfarce.
`Não, lá está muito calor' disse Arnaldo e bebeu o leite expelido pela Mimosa.
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Partiu, não sem antes antes escutar o barulho do estômago e constatar que ainda tinha larica, o que o levou a comer um louva-a-deus verdinho e a vaca Mimosa.
Percorreu duas quintas à procura de missões especiais. Falhou e então decidiu continuar para uma casa assombrada, ver se lá havia fantasmas para caçar.
`Quero droga!' gritou o fantasma do John Lennon.
`A cocaina não és buena para a tua saudita' disse a Alice a assoar-se. Arnaldo deu-lhe um lenço, e um sopapo ao fantasma.
`Estás perdido urso ou gostas de cerejas?' miou Alice, nua e sem preconceitos.
`Quero sentir o vibe fluir pela minha melancia, quero disparar pevides pelos olhos, minha dama.'
Alice sentiu que estava perante um Apólo, e apreciando mais os Dionísios fugiu dali. Arnaldo foi então para o interior da casa procurar um foguete para ir para a lua de Vénus. Teve sucesso e, assim, morreu.
Crow & doom
Esta história foi escrita a caminho de e em Paredes de Coura, daí a inspiração bucólica, enriquecida com plágios de Herman Hesse e do indivíduo que gritava que queria droga pelo acampamento fora.
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